Chovia! Ah, sempre ela, a chuva... Mas dessa vez valia a pena, ou valeu a pena. O cenário, já antes belo pelas gotículas de água caindo e o prisma que elas formavam ficou paralisante depois que ela surgiu, não mais a chuva, mas ela, por agora simplesmente Ela. Caminhava a passos rápidos, quase correndo, fugindo da chuva e entrou na sala. A mesma sala em que eu estava e da janela acompanhava toda a cena.
Olhou a sala toda ao redor e nossos olhares se cruzaram. Eu não sabia quem era ela mas na hora senti que ela seria alguém. Disso que chamam de “insights”, devo ter tido um.
Arrisquei! Arrisquei mesmo. Fui à chuva e busquei uma flor, somente uma, que fosse bem bonita. E ainda que pudesse ser chamado de cafona ou qualquer outro adjetivo do tipo, fiz-lhe um bilhete e entreguei junto com a flor:
- Moça, eu sei que a gente não se conhece mas eu só queria te mostrar uma coisa. Essa flor aqui. Bonita, não é? Mas ela só é bonita porque estava ali ó, na chuva. Por que ela não tem medo da chuva, ela sabe que com a chuva as coisas ao redor dela mudam e ela muda também, pra melhor. Eu estou tentando perder o meu medo da chuva e dizer pra você algo que até dez minutos atrás eu não acreditava, isso que chamam de intuição. Mas estou me libertando dos meus conceitos porque intuitivamente eu senti que você vai significar algo pra mim e eu queria uma chance de te conhecer melhor.
Vivemos um romance. Um amor de verão. Ou melhor, de outono. Apaixonamos-nos e desapaixonamos em sete dias, o tempo dela na cidade, o tempo da chuva naquele mês, o tempo em que eu perdi o meu medo da chuva, o tempo em que perdemos o nosso medo da chuva.
Post-scriptum: "Medo da chuva" é o mesmo título de uma grande canção de Raul Seixas que inspirou parte desse texto. Obrigado Raul!