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Ao mestre, com carinho

Alguns são obrigados a se alimentarem de giz durante anos. Outros têm as articulações da mão comprometidas. Outros chegam em casa com o nível de estresse hiper elevado. Mas o fato é: o professor é uma das personalidades mais importantes da vida de qualquer pessoa.

Há poucos dias, infelizmente, um grande mestre nos deixou. Quem diria, hein, Tio Ed. Depois de três dias dentro de um camburão de São Paulo à Bahia preso por fazer reunião contra a Ditadura Militar. Depois te tantas e tantas batalhas como estudante, como lutador, como brasileiro, quebrando, finalmente, as amarras da ditadura dos homens egoístas e medíocres. Depois de um brilhantismo tão grande como o daqueles olhos azuis, dentro da sala de aula. Agora era a vez de vencer o mais tirano dos algozes, a morte.

Certa vez vi em um filme de guerra medieval um dos personagens dizendo que não há mérito algum em se morrer em batalha. Que você será mais um, lutando, por um rei, e morto. E, na situação em que foi colocada, eu concordo. Mas com certeza há uma alegria tremenda em viver pra ver que, de algum modo, aquela sua luta venceu. Você, com certeza, conseguiu isso Tio Ed. Ainda que não da maneira como sonhada, longe de conseguir um país perfeito, com a prostituição da palavra tantas vezes almejada, a tal da “de-mo-cra-ci-a”. Você é um vitorioso.

Talvez – muito provavelmente – o senhor não se lembre de mim. Mas eu jamais te esquecerei. Mestres como o senhor marcam a vida daqueles que enxergam a grandiosidade de uma aula sua.  Sei, que quando olhar para o céu, e uma estrela brilhar de azul, serão teus olhos brilhantes, olhando essa terra, olhando esse povo. Lembrarei de suas histórias, de seus exemplos e de sua doçura tímida disfarçada pela longa e emblemática barba.

A você Edmundo, meus mais sinceros agradecimentos. E minhas eternas saudades.

Mãos

Dois garotos, Albrecht e Albert, 17 e 16 anos respectivamente. Pobres, muito pobres. Filhos mais novos de uma família com 8. Filhos de um pai carvoeiro, explorado em minas de carvão, mesmo destino dos outros 6 filhos assim que chegavam aos 18 anos, e Albrecht estava quase lá. Mas os dois eram diferentes, e como eram: tinha um incrível talento para as artes, daqueles que só pode ser aquilo que chamam de dom, porque pintavam quadros como jamais alguém imaginara que se faria em uma família de minerador.

Albert, o mais novo, era ainda mais especial. Tinha traços jamais vistos. Seu pai sabia disso, e chorava internamente todas as noites por não poder fornecer aos filhos condições para viverem de sua arte. Moravam na Alemanha, numa pequena cidade do interior, e havia Nürnberg uma famosíssima Escola de Artes, mas era inacessível para eles. Seu pai, só poderia pagar a mensalidade, os materiais necessários e as despesas de moradia se juntasse tudo o que ganhara durante o mês de trabalho, e ainda assim só seria suficiente para um, mas aí o que sua família iria comer? Grande era a tristeza daquele pai.

Certa noite aquele pai decidiu acabar com aquilo. No dia seguinte comunicou aos dois meninos que se preparassem, pois amanhã iriam à mina de carvão com o pai e começariam já a trabalhar. Os meninos choraram. Passaram a noite em claro pensando em uma forma de mudar isso, e com o sol já nascendo pensaram em algo. Um dos irmãos trabalharia na mina, e todo dinheiro que ganhasse mandaria ao outro, que estudaria na tal escola, e o outro, após os 4 anos de curso faria o mesmo, pagando o curso do outro irmão. Mas e aí, como decidir qual iria para a mina e qual iria para a Universidade? Quis o destino se meter nessa história. Tirariam na sorte. Cara ou Coroa. E o destino se meteu. Albrecht ganhou.

Albrecht foi para a Universidade, conheceu professores brilhantes, e com 1 ano de curso seus quadros já eram conhecidos. Com 2 anos de curso, seus quadros já valiam mais do que os de seus professores, e ele já se mantinha praticamente sozinho. Albrecht completa o curso sendo já um pintor conhecido em boa parte da Alemanha, e como prometido, volta pra casa.

Ao chegar, compra um vinho, uma boa carne e faz um jantar para a família; seu irmão Albert, já casado e pai, o principal convidado. Todos sentados a mesa, Albrecht levanta-se com a taça na mão, pede a todos que se levantem também porque ele gostaria de dizer algo; todos o fazem, exceto Albert. Ainda assim ele continua: “Gostaria de agradecer ao meu irmão Albert, que durante 4 anos de sua vida trabalhou naquela mina de carvão para pagar meus estudos, e lhe dizer meu irmão, que como prometido naquele dia, eu vou pagar seus estudos e todas as suas despesas durante os próximos 4 anos. Hoje sou um pintor conhecido em toda a Alemanha e o que ganho com meus quadros é suficiente”. Lágrimas escorriam pelo rosto dos familiares e Albert da mesma maneira, sentado e quieto. Albert se pronuncia: “Meu irmão, fico feliz que tudo tenha dado certo em sua vida, e que você tenha voltado para cumprir sua parte no acordo. Eu trabalhei 4 anos nessas minas de carvão, e durante esses 4 anos eu quebrei todos os dedos das minhas mãos duas vezes, fiz um profundo corte em minha mão direita que afetou minhas articulações e hoje não consigo sequer segurar uma taça para brindar contigo. Aqueles traços minuciosos em uma tela eu já não sou mais capaz de fazê-los.”.

Albrecht não se conforma. Aquilo não era certo. Seu irmão era um pintor muito melhor do que ele, e hoje estava incapacitado de pintar. Então Albrecht decide o que faria. Pintou um quadro, baseado em seu irmão. O quadro retrata duas mãos juntas, como se fossem rezar, uma intacta, mãos de um pintor, a outra, destroçada, mãos de um carvoeiro. Ele prometera que todo o dinheiro arrecadado com o quadro seria de seu irmão. Prometera também que nunca mais uma pessoa abandonaria sua arte por falta de dinheiro. Aquele viria a se tornar um dos quadros mais famosos da Alemanha e do mundo, valendo milhões e milhões de qualquer moeda. Albrecht fundaria, também, uma Escola de Artes totalmente gratuita em Nürnberg, e na entrada dessa escola há uma réplica do quadro e uma placa em bronze dizendo: “Ninguém vence sozinho!”.

Post-scriptum: Essa história circula na web como verdadeira mas não é possível comprovar sua veracidade tampouco sua falsidade. Logo, a história não é de minha autoria mas o texto sim.

Post-post-scriptum: Esse texto foi postado como marca de uma vitória conquistada. Foi meu nome que apareceu lá, mas a vitória é de todos nós.

Real, assim, cheio de defeitos

Desce daí meu amor, desce!
São esses teus olhos, castanhos, indecifráveis, como teu amor por mim.
É esse teu jeito simples de viver, de sorrir loucamente.

Desce daí meu amor, desce!
É essa tua covardia, abrindo mão dos sonhos e fantasias
É a lembrança da tua voz ao pé do ouvido
É esse teu mistério cercado de ternura.

Desce daí meu amor, desce!
É esse teu jeito de dizer sem palavras
É essa tua mania de voar por todo o mar
É o meu pensamento que só fica em você
É o vento que te traz pra mim.

Desce daí meu amor, desce!
Sou eu aqui, largado num canto
É você aí, idealizando
Sou eu aqui, ferido
É você aí em carne-viva.

Desce daí meu amor, desce!
Desce desse teu castelo de fingimentos
E volta pro meu casebre de sentimentos.