Um dia você vai sentar naquela boa e velha cadeira de balanço, que fica bem ali no canto da varanda da casa do seu avô. Vai ficar ali observando o sol se pôr, tomando aquela deliciosa fresca de fim de tarde, e vai lembrar...
Não vai lembrar com dor, nem com tristeza, nem com mágoas; vai lembrar como uma adulta, e vai pensar naquilo. Vai enxergar que, de repente, o erro pode ter sempre começado por você, e vai começar a ver que, mesmo sem perceber, acabava sempre buscando nos outros um reflexo de si mesma. Vai perceber que dessa forma limitava as pessoas ao seu mundo, não permitindo que elas lhe mostrassem o delas. E elas não se adaptavam! Ou você julgava que elas não se adaptavam.
Vai recordar também que as melhores amizades que ainda mantém são aquelas que fugiram dessa regra. Seja aquele amigo que conheceu na 1ª série, quando somente brincavam de pega-pega nas horas vagas. Ou aquela outra que se aproximou de você porque um primo dela estava interessado em você, lá nos seus 15 anos. Ou então aquele outro que você conheceu no 1º dia de aula da faculdade, no trote, em que ele sem nunca ter te visto antes te acalmou do medo que você estava da brincadeira – mal sabendo você naquela hora que ele se tornaria seu fiel parceiro de bar e seu maior ouvinte nos momentos que você mais precisava. Quem sabe então daquela estagiária que você ajudou um bocado no início e que posteriormente se mostrou uma excelente profissional e uma amiga melhor ainda.
Nesse instante o sol já se foi e você nem viu. Você vai querer um abraço do seu avô, daqueles que você só dava quando era criança, quando você deitava na rede com ele e ficava coçando lhe coçando a barba. Mas ele já não está mais ali. Uma lágrima então vai escorrer, depois outra, depois outras; mas não há como dizer se são de tristeza ou de alegria. Nem precisa! Você vai deixá-las escorrer até elas secarem e vai levantar daquela cadeira com o peito estufado, a memória do sorriso do seu avô e vai sorrir também. Vai sorrir porque vai ouvi-lo dizer bem baixinho no seu ouvido:
- Parabéns minha querida, você agora é outra pessoa.
E realmente será! Será aquela pessoa disposta a agarrar cada oportunidadezinha que a vida te dá todos os dias. Disposta a sorrir. Disposta a fazer alguém sorrir. Disposta a dar um bom dia. E disposta a não mais procurar reflexos de si mesma, mas a conviver e aprender com as peculiaridades de cada um...