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Cicatrizes

Vó Dade era uma senhora que morava vizinha a minha casa. Eu adorava sentar em sua calçada, ela me trazia uma laranja e nós ficávamos conversando enquanto eu me lambuzava. Em seu rosto havia algumas manchas (que por vezes pareciam rugas) devido a uma doença que eu nunca soube realmente qual era; mas não era assim que ela me contava. Eu tinha 5 anos e um senso perguntador aflorado. Na primeira vez que a perguntei sobre as manchas ela sorriu e com aquela calma de sempre me contou que elas eram marcas de algo que ela tinha vivido. Cada mancha era um episódio. E cada vez eu perguntava sobre uma mancha diferente. Ela não parecia se importar e me contava sempre uma história diferente. Não sei se todas eram verdadeiras, mas algumas realmente eram cicatrizes de algo que a marcou, seja física ou emocionalmente. Mas um dia eu consegui surpreendê-la:

- Vó Dade, por que nessa parte do rosto a senhora não tem nenhuma marca?

Os olhos dela brilharam e ela respondeu:

- Aqui, meu pequeno, foi seu “avô”. Não que com ele eu não tenha marcas, pelo contrário, tenho muitas; mas com ele foram as melhores marcas da minha vida. Foi com ele que nossos passos se acertaram e nós paramos de tropeçar. Essa parte sem marca é, na verdade, a maior marca de todas.

Vó Dade se foi alguns anos depois, mas eu ainda me emociono ao lembrar isso, e a cada marca que me surge eu lembro do que aprendi com ela.

Além do que se vê

É uma partida de futebol e como ela pediu a bola está com ela. Ele está novamente em campo, ali, se movimentando pra receber a bola em boas condições. Ele está ali disponível pra receber e tocar pra ela novamente, tabelarem. Mas nesse momento ela é a organizadora do jogo, a dona da bola; eles só farão o gol juntos se ela quiser tabelar com ele. E se ela quiser, ela saberá como fazer. Ela saberá como demonstrar a sua intenção de passe e vai se movimentar pra receber a bola de volta; ela saberá demonstrar que ele é o jogador que ela quer que seja o artilheiro.

Ele está novamente em campo, ali, se movimentando pra receber a bola em boas condições. Mas pra receber a bola. Se ele se movimenta e não recebe, a jogada não flui; e ele se cansa. Correr errado cansa mais. Bem mais. E ele vai se cansar de jogar, e vai pedir pra sair, ou vai esperar o jogo acabar. Não como da outra vez em que o final da partida ocorreu repentinamente e os jogadores ainda sentiam que o jogo não havia acabado, dessa vez, se isso acontecer, o jogo vai caminhar pro seu final automaticamente; os jogadores vão se demonstrar cansados, só esperando o juiz apitar logo, conformados com o resultado da partida, minados com o desfecho que isso teve.

Tão seu, tão meu...

Hoje, na primeira respirada que dei ao acordar, senti seu perfume. Abri os olhos lentamente e pude ver as gotículas todas sorridentes, me acenando levemente, me presenteando com seu cheiro, com SEU cheiro. Não sei como terminará o dia de hoje, mas que o início dele já valeu a pena, ah valeu!

Do que eu não entendo

Hoje logo cedo despertei. Abri vagarosamente os olhos e percebi que o dia mal tinha dado suas caras, decidi então fechar os olhos novamente e voltar ao meu mundo dos sonhos. Nesse meio tempo me peguei pensando: se eu pudesse escolher sonhar com você, como seria esse sonho? Fechei definitivamente os olhos e fui sonhar.

Sob o controle de um rígido diretor a câmera da nossa cena nos tomava por baixo. Vi nós dois caminhando descalços e por mais que eu fizesse força não conseguia enxergar o chão embaixo, logo não sabia onde estávamos. Lentamente a câmera subiu, vi então que minha calça estava dobrada até os joelhos e pude enxergar a ponta de um sapato, que imaginei estar carregando nas mãos. Em uma dualidade torturante e prazerosa a câmera se movia lentamente, subia e descia bem pouco, como se acompanhasse os passos de quem ela capturava.

Quando a falta do chão começou a realmente me incomodar, ele clareou. Nada mais clichê do que areia com um mar ao fundo. Decepcionei-me por um segundo, somente por um. No segundo seguinte percebi que bastava eu querer que poderia enxergar mais da cena. Seria eu o diretor? Pulei essa pergunta, estava mais interessado no restante. Subi lentamente a câmera. Queria continuar aproveitando cada pedacinho de imagem, cada quadradinho. De certo estaríamos de mãos dadas, e realmente estávamos. O surpreendente naquela tomada era a leveza com que as mãos se tocavam, pareciam já fazer parte uma da outra há tempos. Fiquei receoso daquela não ser minha mão. Ou não ser a sua! Mas se aquilo era um sonho, o meu sonho, as mãos seriam nossas. Dormindo sorri.

Eu queria mais, mais daquele sonho, mais daquelas mãos. Eis que o rígido diretor novamente toma conta. Ei, não era eu esse diretor? Não obtive resposta. A câmera vagarosamente se moveu a frente dos nossos passos. Porque ele estava errando a tomada daquele jeito? A câmera ia e voltava, errava e consertava... Demorei mas percebi que ele queria me mostrar algo, então minha curiosidade foi a mil. Fiz força para enxergar o que eu queria mas não, dessa vez eu não estava no comando.

Na vez seguinte em que a câmera se adiantou pude perceber uma pequenina mancha branco-acinzentada, e como sempre fizera, aquele diretor ia me mostrando bem aos poucos. A mancha foi aumentando, ainda que embaçada, e consegui enxergar outro pedaço de mancha a certa distância lateral daquela. Foi então que a cena parou. Ou melhor, paramos. Paramos de caminhar. E dessa vez com maestria o diretor nos mostrou o motivo. As manchas foram clareando e enxerguei então uma linda criança brincando com um cachorrinho. Ela sorria largamente, demonstrando ao mundo toda a felicidade que aquele momento transmitia pra ela, sem receio algum. A câmera não mostrou, mas tenho certeza que nos olhamos e sorrimos também.

Sem explicações, sem razões, sem final; a câmera lentamente desligou. Se eu pudesse escolher, de certo meu sonho contigo não seria dessa forma. Se eu pudesse escolher, de certo deixaria de sonhar um dos mais prazerosos sonhos que já tive.

This one is for you

Hoje comprei uns bombons rebuscados e bombons sempre me lembram da gente.

Me lembra de quando comíamos juntos, um por um, calmamente, e comentando sobre eles. Nossos comentários ora precisos ora completamente dramáticos, envolvidos pelo delicioso sabor do chocolate derretendo na boca.

Me lembra das diversas sensações que tivemos quando experimentamos diferentes chocolates, mas sempre, de uma maneira ou de outra, juntos, com nossos comentários. Ríamos quando um se lambuzava demais ou quando se perdia no sabor e viajava para outro planeta. Lamentávamos quando um criava uma expectativa sobre uma nova caixa de bombons e acaba por ter uma frustação, mas sempre superamos. E nunca nos faltavam bombons!

Logo agora? Logo agora que eu tenho uma caixa deles nas mãos, que eu tenho vários chocolates diferentes pra te mostrar e ouvir sua opinião, e rebatê-la, e ser rebatido. Eu sinto falta, admito! “A gente” é grande demais pra eu não sentir.

Hora ou outra você volta, e eu – apesar dos vários beliscões que levarei do meu orgulho – vou sorrir pra você. Dividiremos novamente os bombons e, ao menos pra mim, eles serão novamente mais saborosos.

“Ainda lembro que eu estava lendo
Só pra saber o que você achou
Dos versos seus, tão meus que peço
Dos versos meus, tão seus
Que esperem que os aceite...”

Apenas começamos

– O que você faria se encontrasse uma mulher e sentisse coisas por ela que se encaixassem perfeitamente em tudo aquilo que você sempre idealizou que fosse o que chamam de amor?

– O que você faria se você se visse loucamente apaixonado, amando aquela mulher como jamais imaginara que um dia amaria alguém?

– O que você faria se casado com ela, visse todo aquele amor sendo reprimido, sucumbindo dia após dia na luta de recuperar seu espaço e mostrar que ele está ali, do mesmo tamanho que sempre foi, mas que estão tentando escondê-lo?

– O que você faria se o convívio entre vocês se tornasse insustentável e apesar de ver nitidamente, você não soubesse o que fazer pra evitar que a mulher de sua vida lhe escape por entre os dedos?

Foi com o eco dessas quatro questões ditas pausadamente por lágrimas e alguns soluços que acordei, recordando a última de uma das já rotineiras discussões com Letícia.  Com um final de semana desastroso como aquele, minha semana não prometia ser muito melhor.

– Bia! Bia! Acorda minha querida, já está na hora. – era Letícia chamando nossa filha de quatro anos.

Bia era um doce. Traquina, mas um doce. Adorava me abraçar, pular em meu colo, bagunçar meu cabelo. Deve ter puxado essa expressividade de amor da mãe; não que eu não o faça, mas sempre fui mais discreto nas ações. Ela, sobretudo, vinha sendo nos últimos tempos a única pessoa a conseguir me fazer sorrir por alguns instantes.

Letícia saiu levando Bia para a escola e de lá iria para o seu escritório de Arquitetura. Eu me sentei na banqueta que sempre fora de enfeite para o balcão da cozinha, com minha caneca de café da mão, ainda de pijamas, e esqueci-me do tempo. Pela primeira vez liguei pra minha secretária e pedi que ela transferisse meus clientes para outro horário; tudo tem uma primeira vez, mesmo pros dentistas mais corretos.

Se essa era uma segunda-feira para primeiras vezes, troquei de roupa e sem rumo certo peguei o carro e saí. O sol de Salvador, pra variar, estava absurdo; mas ainda assim o fui. Sem perceber sai do Costa Azul, passei pela Pituba, desci pela Amaralina, passeei pelo Rio Vermelho, Ondina e ao chegar à Barra parei. Não me lembrava da última vez que tinha vindo a este farol, o que me deixou envergonhado por ora.

Deixei o carro por lá mesmo e entrei no primeiro bar que vi aberto. “Um whisky por favor!”. – Foi mesmo o “Doutor Alberto” quem falou essa frase? – Desacreditei de mim e percebi que aquele não seria um dia como todos os outros, só cabia a mim permitir que ele me ensinasse pouco ou muito. Achei melhor parar com o whisky e beber mesmo uma cervejinha, mas isso fiz sentado na areia praiana, dividindo o olhar entre o farol e o mar. Alguns mergulhos e algumas latinhas, lá estava eu bêbado. Ou quase isso. E foi aí que meu dia tomou forma.

Não lembrava mais como era a sensação de estar bêbado. E nunca antes fiquei bêbado por amor. Não tinha dúvidas de que aquela viagem seria repleta de surpresas, a começar pelas lembranças que vieram...

– Sabe o que eu mais gosto em você? A sua segurança. A segurança que você me transmite em tudo que você faz, desde o menor gesto até coisas grandes. A maneira como você aceita um simples convite, a maneira como você me convida pras suas aventuras, a maneira que você nunca torna suas dificuldades maiores do que elas são; até a maneira como você dirige é segura. – Foi o que disse Letícia já com um sorriso no final da frase, enquanto viajávamos sem rumo em uma aventura a dois. Ri quando me lembrei do “sem rumo”. Tínhamos por volta dos 21, 22 anos e involuntariamente me perguntei se aquele cara já havia se perdido pelo caminho. Aquilo foi também o algo palpável que eu precisava pra confirmar que aquela era a mulher da minha vida e pedi-la em casamento 27 dias depois.

Mesmo quando jovem eu não tinha dúvidas, sempre me achei um porto seguro, tanto pra mim mesmo quanto pra ela. E eu que sempre fui assim tão seguro, lembrava de cada palavra daquele dia e ficava cada vez mais sem chão. Agora, mais uma vez, não tinha dúvidas; só não tinha soluções.

Fui então um pouco mais longe, lembrando de quando a vi, somente a vi, pela primeira vez no elevador daquela universidade gigantesca, que mais parecia um shopping. A maneira como ela entrou, como estava vestida com um vestidinho solto e sandálias rasteiras, linda! A maneira como o vento levemente passou por seus cabelos, como ela tirou os óculos escuros que usava e o prendeu acima da cabeça com uma cara de séria, mas ainda uma cara de menina. Tínhamos ali ambos 17 anos e a vida pela frente.

Aos 17 aquele cara que não tinha medo de jogar estava a todo vapor, então disfarçadamente a esperei no hall da faculdade pra tentar puxar algum assunto. Sim, a vida é uma caixinha de surpresas, e naquele momento eu estava começando a abrir a minha.

Sem perceber as lágrimas já estavam escorrendo. Não sei se sempre fui um bêbado chorão mas tudo indicava que naquela manhã eu seria. Então minhas lembranças começaram a apelar: os passeios, as viagens, as aventuras, as músicas, os filmes; uma por uma me passaram pela mente, em forma de flashes. Covardia!

Percebi então que aquelas lágrimas tinham um pouco de tristeza mas em sua essência não eram tristes. Um sorriso começava a brotar em minha face quando me lembrei das trapalhadas que fiz na primeira vez que tomamos sorvete juntos. Depois daquele elevador ficamos amigos, papeávamos sempre que possível e dessa amizade saudável surgiu o nosso amor, à nossa maneira.

Lembrei então do nosso início de namoro, onde aproveitávamos qualquer horinha vaga na faculdade para namorar um pouquinho entre as árvores. Lembrei também das vezes que a acompanhava até em casa só para ganhar uns beijinhos ao pé do muro. E como eu era feliz com aquilo! Por mais inevitável que fosse o pensamento de “será que aquele cara se perdeu?” eu não queria aquilo, não agora; queria lembrar mais e mais, queria me deliciar com aquelas lembranças naquele momento. Talvez por isso as lembranças tenham algo especial, porque elas ficam para sempre, independente se aquelas pessoas mudaram.

Fui então à memória do nosso primeiro Reveillon juntos e uma das melhores declarações de amor que recebi. – A essa altura eu já me debulhava em lágrimas. – O clima era lindo, pela primeira vez passaria o Reveillon acompanhado e aquilo me trazia sensações que eu não sabia descrever. Pode parecer besteira, mas eu estava adorando. Eis que quando os fogos começaram a brilhar no céu, juntamente com o primeiro abraço, vieram as palavras: “meu coração dispara fogos de artifício como esses toda vez que eu te beijo, desde a primeira vez. E desde a primeira vez eu soube que era você.”. E aquele jovem todo seguro de si ficou sem reação! Hoje eu penso que lá no fundo eu também já sabia que era ela, e se não sabia naquela época, a cada minuto que se passava agora eu tinha mais certeza.

Eu já tinha parado de beber há um tempinho, pouco antes de Jorge, um conhecido, me encontrar na praia. Ele obviamente percebeu que eu estava um pouco alterado e insistiu em me levar pra casa, mas eu recusei. Aquele meu lado mais certinho sentiu naquela hora que “daria merda”, então corri pra comer algo que cortasse a bebida. Eu só não esperava que Jorge faria o que fez: ligou pra Letícia!

Ela atravessou a cidade o mais rápido que pôde e logo chegou desesperada na praia me procurando. Não era pra menos, imagino o que Jorge não havia falado no telefone. Eu sabia que deveria parecer o mais sóbrio possível naquela hora, caso contrário as coisas poderiam afundar de vez. Letícia olhava pra todos os lados enquanto caminhava sem rumo na praia me procurando; eu já a tinha visto há algum tempo, então calmamente me aproximei. Ela, assustada ao meu toque, só teve a reação de me abraçar muito forte, seguidos de uns tapas, lógico.

Não foi nada fácil convencê-la a sentar-se na areia, ainda mais com o traje social que ela vestia. Tirei então seus sapatos e sentei-me abraçado com ela por algum tempo, sem falar nada. Comecei então a contar a aventura que tivera naquela manhã, detalhe por detalhe.

– Eu me dei conta de que prefiro brigar com você do que amar outra pessoa. Percebi que finais felizes nem sempre são clichês. E se é clichê dizer que a vida é escrever um livro sem borracha, que o meu clichê seja dobrado, pois eu quero um final feliz.

Nos emocionamos juntos, rimos juntos, choramos juntos... Eu não podia estar tão errado assim, aquela era sim a mulher da minha vida! Finalmente eu consegui ultrapassar a barreira teórica e sentir o que quis dizer Renato Russo no finalzinho daquela canção:

“E nossa história não estará pelo avesso assim,
Sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás,
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos...”

O dobro ou nada

Cansei dos meios!

Meio-termos, meias-palavras, meias-verdades, meias-mentiras, meias-histórias, meio-contadas, meio-vividas... Meios-olhares, meios-sorrisos, meio-sarcasmo, meia-ironia, meia-acomodação... Meia-pessoa, meia-vida, meio-sonho.

Quero uma palavra inteira, que encha a boca. Quero uma verdade irrefutável. Ou uma mentira incontestável.  Quero uma história. Duas. Dez. Mil. Uma história minha. Uma história nossa. Uma história nossa e deles.

Quero um olhar com sentimento, seja ele qual for. Quero um sorriso espontâneo. E dos grandes. Nada de cara de paisagem. Nada de gente pela metade.  Nada de sonho pela metade.

Quero tudo inteiro! Seja bom ou seja ruim, mas que seja inteiro!

Primeira pessoa

Não é egoísmo não, mas tem coisas que eu prefiro guardar só pra mim. É que elas têm algo especial que as diferencia e nas mãos de outros esse quê especial poderia não ser o mesmo, correndo o risco de quebrar o meu encanto.

Pode ser uma música, um filme, um livro, um texto, um trecho, uma frase. Um objeto, uma carta, um momento, uma risada, uma lágrima. Pode ser uma data, uma hora, um mês, um ano, uma pessoa. Pode ser tudo, mas desculpe-me, é “tudo” meu.

Confissão

Lembrou-se da primeira vez que a viu, na sorveteria Flor de Lis que ficava bem no centro daquele pequeno comércio na parede lateral da pracinha. Gostava daquela sorveteria porque de dentro dela ficava admirando as crianças brincando no coreto ou os casaizinhos que vez ou outra passeavam por lá e lhe trazia a recordação do interior em que ia todas as férias quando criança e se divertia com os primos. De fato naquele dia ela não o chamou atenção.

Lembrou-se então do dia em que pela primeira vez a viu em uma festa. Ela dançava sozinha, cheia de graça, livre como um pássaro, balbuciando a letra da canção sorridente. Belíssima! Ficara encantando com a beleza do vento em seus cabelos, com a magia com que mexia os quadris e as mãos, de maneira que nunca tinha visto antes, acompanhando o ritmo da música. Decidira ali que aprenderia a dançar.

Lembrou-se das aulas de dança que passou a freqüentar e de como rapidamente se encantou por aquela arte que desconhecia até então; e apesar do namorico de cinco meses que tivera com sua colega e parceira de aulas, nunca se esquecia daquela desconhecida menina dançando.

Lembrou-se de quando finalmente criou coragem e foi falar com a tal moça; de início assuntos triviais, um convite para uma dança tímida e rápida, mas não demorou muito e foram evoluindo os assuntos bem como a confiança, tornando-se amizade.

Lembrou-se de como ela passou de sua amiga para sua parceira de dança – a melhor –, sua namorada, sua amante, sua amada.

Lembrou-se de como fora imbecil e estúpido, por motivos que desconhecia se tornou um tanto diferente naquele mês de setembro, e por conta de suas imbecilidades a perdera.

Lembrou-se que cacos de vidro não podem ser colados ou remendados perfeitamente, sempre faltam uns pedacinhos, aqueles que se tornaram realmente cacos, que não podem ser restaurados.

Lembrou-se finalmente que um copo meio cheio é diferente de um copo meio vazio; e hoje ele é um copo meio vazio.

This feeling inside

Dois mil e doze começou e, como todo ano, eu não fiz promessas, metas, objetivos etc. Acho mesmo que desejei que esse seja um ano de mais abraços, mas isso não conta. Gosto de abraços. Assim como gosto de colocar minhas vírgulas onde achar que dará mais sentido ao que quero dizer, maldito português.

Inicialmente pensei que nada mudaria nesse blog, tanto que não fiz nenhuma postagem nos primeiros dias do ano; talvez porque ainda estivesse indeciso sobre. Essa deve dizer que algo pode ou vá mudar, mas nem eu sei ainda. Assim como não sei o porquê comecei e como começar esse post. Na verdade acho que eu sei! Uma palavra me inspirou e dela eu decidi me abrir um pouquinho neste espaço, mesmo que isso não represente muita coisa.

Sabe, nesse fim-de-ano-começo-de-outro completou-se três anos que eu mudei estado. Saí de São Paulo para a Bahia e devo dizer que não foi nada fácil. Nada mesmo! Não sei responder se já estou adaptado. Talvez acostumado, mas não gosto dessa palavra. Só que não era sobre isso que eu ia falar.

Durante os dezessete anos que vivi lá, uma palavra sempre me passou despercebido. Talvez porque não soubesse o real significado dela, talvez porque não tivesse enxergado a manifestação da mesma. Cultura. Essa era a palavra.

Eu não quero entrar naquela babaquice de comparações, tampouco de generalizações. Generalizações são sempre falhas, exceto essa que acabei de fazer. Comparações são sim babaquices; pessoas têm qualidades e defeitos, independente de onde sejam ou de qualquer outra generalização. Maldita dispersão! Voltemos à cultura.

Eu, confesso, tive que sair do meu estado natal (e de toda minha vida ao redor) pra entender realmente o que é essa palavra, ou melhor, pra enxergar a manifestação dessa palavra. Acho que agora, já no final, eu entendo o porquê desse post. O que quis mesmo dizer é que eu levei quase três anos mas agora eu percebo naquelas pequenas coisas interioranas as manifestações de cultura. Aprendi a julgar menos e me abrir mais para as coisas acontecerem; e aprendi também a valorizar a cultura baiana.

E se o início de um ano significa fazer desejos, meu desejo pra este blog é que as pessoas consigam enxergar e compreender as diferenças e as culturas e que este blog possa ajudar o crescimento daquele que o escreve e daquele que o lê.

Não foi nada fácil escrever isso.