Menu

Reflexos

Um dia você vai sentar naquela boa e velha cadeira de balanço, que fica bem ali no canto da varanda da casa do seu avô. Vai ficar ali observando o sol se pôr, tomando aquela deliciosa fresca de fim de tarde, e vai lembrar...

Não vai lembrar com dor, nem com tristeza, nem com mágoas; vai lembrar como uma adulta, e vai pensar naquilo. Vai enxergar que, de repente, o erro pode ter sempre começado por você, e vai começar a ver que, mesmo sem perceber, acabava sempre buscando nos outros um reflexo de si mesma. Vai perceber que dessa forma limitava as pessoas ao seu mundo, não permitindo que elas lhe mostrassem o delas. E elas não se adaptavam! Ou você julgava que elas não se adaptavam.

Vai recordar também que as melhores amizades que ainda mantém são aquelas que fugiram dessa regra. Seja aquele amigo que conheceu na 1ª série, quando somente brincavam de pega-pega nas horas vagas. Ou aquela outra que se aproximou de você porque um primo dela estava interessado em você, lá nos seus 15 anos. Ou então aquele outro que você conheceu no 1º dia de aula da faculdade, no trote, em que ele sem nunca ter te visto antes te acalmou do medo que você estava da brincadeira – mal sabendo você naquela hora que ele se tornaria seu fiel parceiro de bar e seu maior ouvinte nos momentos que você mais precisava. Quem sabe então daquela estagiária que você ajudou um bocado no início e que posteriormente se mostrou uma excelente profissional e uma amiga melhor ainda.

Nesse instante o sol já se foi e você nem viu. Você vai querer um abraço do seu avô, daqueles que você só dava quando era criança, quando você deitava na rede com ele e ficava coçando lhe coçando a barba. Mas ele já não está mais ali. Uma lágrima então vai escorrer, depois outra, depois outras; mas não há como dizer se são de tristeza ou de alegria. Nem precisa! Você vai deixá-las escorrer até elas secarem e vai levantar daquela cadeira com o peito estufado, a memória do sorriso do seu avô e vai sorrir também. Vai sorrir porque vai ouvi-lo dizer bem baixinho no seu ouvido:

- Parabéns minha querida, você agora é outra pessoa.

E realmente será! Será aquela pessoa disposta a agarrar cada oportunidadezinha que a vida te dá todos os dias. Disposta a sorrir. Disposta a fazer alguém sorrir. Disposta a dar um bom dia. E disposta a não mais procurar reflexos de si mesma, mas a conviver e aprender com as peculiaridades de cada um...

Nós

Ele sempre se esquecia como a conheceu. Ela, com toda aquela paciência, o lembrava. Foi nas aulas de natação. Tinham quatro anos. Logo de cara ficaram amigos de piscina, só queriam brincar um com o outro. Suas mães também logo ficaram amigas. Descobriram depois que ela morava uma rua acima da dele. A partir dali sempre fizeram tudo juntos: escola, inglês, música, musculação... Quando estavam na segunda série ela se mudou para o mesmo colégio que ele. Trocaram juntos novamente ao entrar no Ensino Médio.

Cresceram e descobriram o mundo juntos. Brigaram mil vezes. Fizeram as pazes mil e uma. Descobriram entre eles o que era a amizade, o que era a cumplicidade, o que era o carinho, o que era o querer-bem, o que era preocupar-se com o outro, o que era consolar-se com o outro. Foram os primeiros um do outro em tudo: a primeira briga, as primeiras pazes, o primeiro beijo, a primeira transa, tudo. Havia entre eles um amor diferente. Tão diferente que não vale a pena complicá-lo, pois era um amor simples. Se amavam do jeito deles e pronto.

Quando tinha 18 anos ele finalmente gravou uma data. Usaria aquela informação quase um ano depois. Era a data em que eles se conheceram. Ela havia há uns anos procurado os registros da escola de natação e descobriu qual foi o seu primeiro dia de aula. Agora eles tinham uma data! E naquele dia, já quase um ano depois, ele se lembrou. Passou em frente à uma loja de roupas para bebê e parou ali por alguns instantes e entrou; sem explicação, simplesmente comprou um sapatinho rosa. Passou também na confeitaria e comprou dois pequenos bolos, os tais cupcakes, e colocou as velas de 15 nos dois.

Dona Arlete o atendeu na porta e nem perguntou o que eram aqueles embrulhos que ele carregava, sabia que era para sua filha. Apenas disse que ela estava no quarto. Ela estava terminando de se arrumar, iria buscá-lo de surpresa pra algum tipo de comemoração.

– Sabe, hoje eu tava passeando sem rumo e passei em frente à uma lojinha de bebê. Eu parei ali na frente da loja, fiquei parecendo um louco, pensando. Pensei algo muito importante e aí entrei! Eu pensei na gente. E... a  gente é como uma pessoa, sabia?

Ela o olhou torto, sem entender a besteira que ele havia dito. Ele prosseguiu:

- É! Sério! Nossa amizade começou como um bebêzinho, bem pequeno, dócil, frágil, encantador... E foi crescendo. Virou uma criança, virou uma pré-adolescente e hoje a nossa filha debuta, 15 anos! Então eu comprei uma lembrancinha pra você sempre lembrar disso, da nossa filha. É loucura, eu sei, mas você me conhece! – disse ele entregando os sapatinhos de bebê e sorrindo.

Ela riu muito e o abraçou emocionada. Ele mostrou então os bolos que havia comprado. De limão com nozes, o sabor especial deles, que os traziam boas recordações. Ele pegou então o violão e tocou pra ela. Ela sempre disse adorava quando ele dedilhava aquele violão. Depois os dois tocaram juntos no teclado que havia no quarto dela, como faziam quando tiveram as aulas de piano.

“...Sempre tem gente pra chamar de nós
Sejam milhares, centenas ou dois
Ficam no tempo os torneios da voz
Não foi só ontem, é hoje e depois
São momentos lá dentro de nós
São outros ventos que vêm do pulmão
E ganham cores na altura da voz
E os que viverem verão...”

Ela era o “nós” dele. E ele o dela. Os olhos marejados dos dois faziam as palavras desnecessárias.

Naquela noite extravasaram aquele amor de todas as formas.

– Quero que você me prometa uma coisa. – Disse ela enquanto estavam abraçados.

Ele olhou desconfiado.

– Calma, não precisa se assustar, é simples. Quero que você me prometa que se algum dia, de alguma maneira, eu não estiver mais ao seu lado, você vai ser feliz sem mim, você vai continuar cuidando da nossa filha.

– Por que isso agora?

– Promete vai!

Pra acabar logo com aquilo ele prometeu.

– Que papo estranho...

– Chega, acabou já! Obrigada! – Respondeu ela sorrindo.


Ele não sabe se ela pressentia alguma coisa, sempre fora muito cético. O fato é que três semanas depois ele passou a conviver cumprindo essa promessa. Pra sempre. Ele, pela primeira vez, ia tocar e receber um cachê por isso. Ela não queria perder isso por nada. Era na cidade vizinha. Ele foi cedo com os outros rapazes pra se organizarem no local, ela iria depois com as amigas. Não chegou a vê-lo tocar. Nem ele tocou. Um rapaz embriagado, junto com seus amigos, invadiu a contramão e chocou-se na diagonal do motorista, sem chance alguma de defesa, mesmo pra ela que dirigia bem. Duas amigas tiveram alguma fratura e a outra apenas alguns arranhões. Essa que estava bem ligou para a ambulância e ligou direto pra ele.

– Aconteceu um acidente aqui, as meninas tão todas machucadas. – Disse toda afobada.

– Calma, onde vocês estão? Tô indo praí!

– Estamos logo na entrada da cidade, corre pra cá! – Desligou o telefone.

Quando ele chegou a ambulância já havia chegado e ele foi impedido de ver o atendimento. Ela faleceu no caminho. Abriu os olhos por alguns segundos, cochichou algo pro enfermeiro e faleceu.

– Lembra ele que ele me prometeu. – Foi o que ela com muita dificuldade falou, disse o enfermeiro.

Ele perdeu o chão com aquela notícia. Entrou em pânico. Sentia-se o culpado, mesmo não tendo culpa alguma. Somente os sedativos e o tempo o amenizaram. De vez em quando ele ia visitar Dona Arlete. Sentia uma dor imensa indo àquela casa, mas não conseguia evitar.

– Dona Arlete, a minha visita lhe causa dor? – Perguntou ele sem mais nem menos.

– Meu filho, tenha certeza que causaria uma dor ainda maior se você não viesse. A dor existe sempre, todo dia, toda hora. Quando eu não agüento mais eu choro, choro o tempo que for necessário, então eu ouço a voz dela dizendo que não devo mais chorar, que devo continuar.

– Eu também ouço essa voz. – Respondeu ele já com a voz trêmula.

Dona Arlete o abraçou. Ela era a única que sabia determinada informação, mas preferia omitir. Prometeu pra si mesma que guardaria isso como um segredo entre ela e a filha. O fato é que ela seria avó quando sua filha faleceu. Guardar aquilo de certo evitaria sofrimentos, ainda que lhe custasse uma dor ainda maior.


Ele passou um tempo perdido, sem vontade pra nada. Limitava-se às visitas para Dona Arlete. Não saia com os amigos, não tocava mais. Nem à faculdade conseguia ir. Mas algo martelava em sua mente: a promessa! Ele sentia que de algum lugar ela juntava suas forças pra dizê-lo que ele havia prometido, e que ele deveria também juntar suas forças e cumprí-la. Ele o fez! Não soube explicar o por que, mas passou a praticamente não comentar mais sobre ela nem sobre o ocorrido, exceto quando visitava Dona Arlete ou quando deitava no colo de sua mãe. Fez novos amigos, terminou a faculdade, foi trabalhar, começou um namoro sério, enfim, foi tentar cumprir. De fato ele não acreditava que era feliz, talvez não o fosse mesmo, mas preferia continuar com a máscara. Levaria aquilo até o fim!


Eram namorados há três anos e ela nunca o tinha visto chorando. Mas naquele dia ele chorava como uma criança. Havia ido visitá-lo no dia errado. Ou no dia certo. Quando abriu a porta do quarto e viu aquilo não disse nada, apenas sentou-se ao seu lado. Algum tempo depois o abraçou.

– Me promete duas coisas? – Perguntou ele ainda chorando.

– Claro!

– Promete que nunca vai me fazer prometer alguma coisa que estará fora do meu alcance?

Ela não entendeu mas concordou.

– E a segunda?

– Promete que a nossa filha se chamará Lara?

– Lara?

Ele caiu em prantos.

– Você quer me contar alguma coisa?

Ele abriu a mão que estava cerrada e a mostrou um sapatinho de bebê, rosa. E contou. Da maneira que conseguiu mas contou. Contou que com 19 anos perdera o chão. Perdera Lara! Sua melhor amiga, sua melhor companheira, sua melhor tudo.

Apenas omitiu que perdera também a mulher de sua vida, ali.

Ela chorou junto. Sentiu uma pontinha de algo, talvez fosse ciúmes, mas entendeu que a dor de seu namorado ali era muito maior. Entendeu que aquele não era somente um choro de dor. Era um choro de amor. Era o choro de alguém que conheceu o que era o amor e lhe foi tirado, mas, sobretudo, ele amou.  Não quis perguntar mais, não quis saber como fora aquele amor, se fora um amor de irmãos, de amigos, de casal. Apenas chorou junto.

Beijo nas mãos

Esse é um daqueles momentos em que uma mistura de sentimentos ocorrem e eu não sei pra onde correr. Bate aquele misto de tristeza, saudade, reflexão e alegria, nessa ordem, ou não. Acho que a reflexão está nas outras três, aliás, é ela quem causa as outras três. E tentando buscar uma saída pra isso, uma fuga mesmo, eu corro pra arte. Corro pra música, corro pra literatura, corro pros filmes. Então, dessa vez, parei pra escrever em primeira pessoa mesmo, uma mistura dos dois primeiros.

Mistura porque essa escrita será movida ao som de Elton John, mais precisamente da música Your Song, mais precisamente ainda sobre um vídeo em específico (esse abaixo!), facilmente encontrado no Youtube.



Acho que o mais justo é eu começar dizendo que essa música é exatamente a maneira de escrita que eu busco. Ela é, em primeiro lugar, sincera. Vem da alma! É simples e diz tudo, absolutamente tudo nessa simplicidade e sinceridade. Ele produziu uma obra-prima com a mistura dessas duas características.

"I know it's not much (Eu sei que não é muito)
but it's the best I can do (mas é o melhor que eu posso fazer)
My gift is my song (Meu presente é minha canção)
and this one's for you (e essa aqui é pra você)
And you can tell everybody (E você pode dizer pra todo mundo)
this is your song (essa é a sua canção)
It may be quite simple (Ela pode ser um pouco simples)
but now that it's done (mas agora que está feita)
I hope you don't mind (eu espero que você não se importe)
that I put down in words (que eu tenha colocado em palavras)
How wonderful life is (Como a vida é maravilhosa)
while you're in the world (enquanto você está no mundo)"

Cada um, independente da sua história, faz um filme em sua cabeça ao ouvir a música (vendo a tradução também vale) - e se você não o fez, acredite, você está no lugar errado: esse blog não me parece ser muito adequado pra você - então você viaja nessa história, seja ela longa ou curta, do presente, do passado ou do futuro, feliz ou triste, acabada ou inacabada, não importa, ela é sua, é a sua história.

E é por isso que nesse vídeo você vê as pessoas chorando. E apesar de achar isso incrível, não foi só isso que me chamou atenção no vídeo. O que mais me chamou atenção no vídeo foi uma cena de uns cinco segundos aproximadamente, em que a mulher simplesmente beija a mão de seu marido. Só isso! São por cenas como essa, onde uma pessoa expressa seu sentimento ao ouvir uma música através das lágrimas que escorrem e de um beijo na mão, é que eu, definitivamente, não desisto de acreditar nessas coisas do amor.

Esse texto não tem uma conclusão - e que esse parágrafo também não o seja - pois a conclusão está aí, dentro de você que lê, que ouve, que chora, que beija uma mão e que ama.

Xeque!

Era um jogo de xadrez e xadrez nunca é um jogo fácil. Você não pode olhar somente as suas peças, você deve olhar o campo todo, observar como estão postadas as peças do outro e tentar prever, se não a jogada, prever como o outro reagirá à sua investida.

O grande problema é que sempre que eu tentava prever a sua jogada você fazia algo bem diferente, que terminava por derrubar a minha peça. E ninguém gosta de perder.

Esse não é um jogo comum de xadrez: nesse jogo, o que estamos jogando, o melhor resultado é o empate; e o com o menor número possível de peças derrubadas... Xeque!

Subentendido

Ela chegou correndo e nem ouviu quando sua mãe lhe disse que havia comida no forno. Trancou-se em seu quarto, seu cantinho, sua paz, o lugar que com certeza mais sabia seus segredos, o lugar onde ela tinha certeza de que era ela. Lamentou-se e chorou durante cinco dias. O choro engasgado há tempos, engolido; e sob as lágrimas escreveu um bilhete que depositou no bolso esquerdo do casaco de listras escuras, que ela tanto gostava porque nele sentia, quase impregnado, o agora dolorido e delicioso cheiro dele. Apesar do ocorrido, não tinha dúvidas de que o amava e preferia depositar ali os bons momentos, o que ela realmente deveria se lembrar. “Uma noite iluminada, um abraço sincero, um afago nos cabelos, um momento de silêncio, um tocar de lábios, um entrelaçar de mãos, uma saudade, você.”

Ele, ao seu modo, também a amava e também sofria. Sofria calado. Pensava e repensava aquele diálogo milhares de vezes. Aquela cena continuava intacta em sua memória. Por que colocou as palavras daquela maneira? Por que ela não respondeu dessa forma? As possibilidades o perturbavam em tudo que fazia e quando não era perturbado pela cena, lembrava-se dos momentos com ela e de como eles eram muito melhores. Desejava tê-la em tudo: na rua que caminhava, nas conversas que tinha, nas músicas que ouvia, nos filmes que assistia. Nada disso a tirava de sua mente, pelo contrário. Teve por fim a certeza de que as melhores perguntas são aquelas feitas pelo olhar, pois é do olhar que obteria a melhor resposta.

Ela se lembrava de como, apesar de muito sociável e de fazer amizades facilmente, era cheia de não-me-toques e como isso, com ele, foi se modificando. Ele de como, apesar de também bastante sociável, passava uma imagem de arrogância, parte devido ao seu perfeccionismo, que sabia que tinha mas preferia não modificar; a outra parte era puramente impressão.

Se isso fosse um filme daqueles bem água-com-açúcar, com certeza nessa parte entraria a cena dos dois lembrando das mesmas coisas: os filmes que ele a ensinou a gostar, as músicas que ela o apresentou, as leituras que, de diferentes maneiras, descobriram juntos. De fato se lembraram.

Não quis ligar, não quis mandar mensagem, não quis falar pela internet. Deixou o carro em casa e saiu caminhando, sem rumo, e quando percebeu estava em frente a casa dela. Ficou ali parado por alguns segundos, talvez até alguns minutos, e caminhou mais um pouquinho. Foi em direção àquela pracinha que ficava a poucos metros da rua dela e que guardava tantas recordações daquele casal. Sentou no mesmo banco que sempre sentavam e como um ator, repassou algumas vezes o discurso ensaiado.

Tocou a campainha. Tivera naquele momento a sensação de que maquiagem e roupa nenhuma a deixava tão bonita quanto o natural; ela o atendeu. Quando se olharam não era preciso dizer nada, os dois naquele momento sabiam o que queriam e nenhuma palavra seria necessária. Ele, entretanto, no alto de sua sensatez – por vezes até arrogante – não abriu mão de uma conversa. Refizera a cena tantas vezes, não haveria como não dar certo. Ela também, lá no fundo, não abriria mão da conversa. Ambos queriam as mesmas coisas: dizer e ouvir... Perdão!

Com clichê, por favor!

Há tempos penso que deveria escrever sobre você... Imaginando como deveria começar me peguei pensando a seguinte frase: “Tem que ser algo que não seja clichê.”

Mas afinal, o que é ser clichê?

É clichê dizer o bem que você me fez e me faz? É clichê dizer que, por mais que eu tente controlar, eu penso em você em muitos momentos do meu dia? É clichê dizer que me pego com sorrisos bobos do nada e não preciso nem me questionar qual é o motivo dele? É clichê dizer que se às vezes pareço meio perdido é por que estou encantando?

É super clichê, eu sei. Mas há clichês que valem a pena. E como valem...

O que é bom de ser dito não deve importar tanto se é clichê, frase feita. Deve ser dito aquilo que realmente sentimos, da forma como achamos melhor, ao nosso jeito. Se será parecido ou considerado um clichê pouco importa, o principal nessas situações é dizer o que sentimos, sendo um clichê ou não.

A verdade é que ao escrever para você eu gostaria de dizer algo único, só meu, só para você. Mas eu não consigo fugir dos clichês quando paro pra pensar e imaginar que tudo isso é feito esperando, torcendo e desejando te ter aqui comigo, agora. Quer algo mais clichê que isso?

Se depender de mim será assim: um belo clichê!

Medo da chuva

Chovia! Ah, sempre ela, a chuva... Mas dessa vez valia a pena, ou valeu a pena. O cenário, já antes belo pelas gotículas de água caindo e o prisma que elas formavam ficou paralisante depois que ela surgiu, não mais a chuva, mas ela, por agora simplesmente Ela. Caminhava a passos rápidos, quase correndo, fugindo da chuva e entrou na sala. A mesma sala em que eu estava e da janela acompanhava toda a cena.

Olhou a sala toda ao redor e nossos olhares se cruzaram. Eu não sabia quem era ela mas na hora senti que ela seria alguém. Disso que chamam de “insights”, devo ter tido um.

Arrisquei! Arrisquei mesmo. Fui à chuva e busquei uma flor, somente uma, que fosse bem bonita. E ainda que pudesse ser chamado de cafona ou qualquer outro adjetivo do tipo, fiz-lhe um bilhete e entreguei junto com a flor:

- Moça, eu sei que a gente não se conhece mas eu só queria te mostrar uma coisa. Essa flor aqui. Bonita, não é? Mas ela só é bonita porque estava ali ó, na chuva. Por que ela não tem medo da chuva, ela sabe que com a chuva as coisas ao redor dela mudam e ela muda também, pra melhor. Eu estou tentando perder o meu medo da chuva e dizer pra você algo que até dez minutos atrás eu não acreditava, isso que chamam de intuição. Mas estou me libertando dos meus conceitos porque intuitivamente eu senti que você vai significar algo pra mim e eu queria uma chance de te conhecer melhor.

Vivemos um romance. Um amor de verão. Ou melhor, de outono. Apaixonamos-nos e desapaixonamos em sete dias, o tempo dela na cidade, o tempo da chuva naquele mês, o tempo em que eu perdi o meu medo da chuva, o tempo em que perdemos o nosso medo da chuva.


Post-scriptum: "Medo da chuva" é o mesmo título de uma grande canção de Raul Seixas que inspirou parte desse texto. Obrigado Raul!

Cenas da vida

Nas cenas da vida procuro poesia
Nas mulheres que vejo procuro paixão
Nas paixões que vivo procuro o amor
Naquilo que escrevo, libertação.

Nas pessoas que ouço procuro conhecimento
Pras pessoas que falo procuro compreensão
Nas amizades que tenho procuro confiança
Nas histórias contadas, reflexão.

Nos textos que leio procuro palavras
Nas músicas que ouço, sentimentos
Naqueles que admiro, inspiração
Numa folha de papel, uma expressão.

Numa criança feliz procuro a inocência
Num sorriso sincero procuro a emoção
Num toque das mãos, reciprocidade
Numa declaração de afeto, a sinceridade.

No medo que sinto procuro um alento
Nos momentos de tristeza, uma simples alegria
Nas pedras do caminho, aprendizado
Num mundo predador, o romantismo.

Num simples olhar procuro uma resposta
Na fugacidade de um amor, a perseverança.
No buzinar dos carros procuro uma canção
Na minha insanidade procuro o que calei.

Num abraço apertado procuro cumplicidade
Numa linda melodia, uma sublime dança
Na solidão dos bares, o ouro de um riso

No nascer do sol procuro o brilho
No brilhar de uma estrela procuro uma imagem
Na vida que tenho procuro um caminho
Na vida que sonho procuro a felicidade.

Nas cenas da vida encontro poesia.

O bom artista e suas influências

Caro leitor, escrevo hoje para falar de um artista que, definitivamente, mudou muita coisa na minha maneira de pensar e de agir. Acho, inclusive, uma tremenda injustiça não ter falado dele antes. Mas tudo bem. Falo agora de Oswaldo Montenegro.

Na verdade, comecei a conhecê-lo numa tremenda 'cagada'. Estava eu, um dia, meio-sem-ter-o-que-fazer, passando os canais para ver se achava algo interessante (coisa cada dia mais rara) na TV. Eis que paro no canal Record News, no programa do sempre chato Marco Camargo em que ele entrevista artistas, um programa que de vez em quando, bem de vez em quando mesmo, é bom. E naquele dia era.

Havia lá um cara, com os cabelos razoavelmente grandes, brancos, sentado ao teclado e ao seu lado uma mulher com os cabelos encaracolados, que a princípio pouco falava, e que tinha uma flauta transversal nas mãos. Eu não fazia ideia de quem eram. E depois de uns poucos minutos assistindo, vi o apresentador dizendo o nome Oswaldo Montenegro. Corri pra perguntar à minha mãe se Oswaldo Montenegro era aquele cara, porque aquele nome não me era estranho, e ela disse que era. A mulher: nada menos que Madalena Salles.

Confesso que não me lembro exatamente qual foi a primeira canção que o ouvi tocando naquele programa, mas isso talvez não importe mais tanto assim. O fato é que fiquei encantado. Lembro-me do meu encantamento ao ouvir A Lista, ao ouvir Travessuras e outras mais. Assisti aquele programa até o fim, e ele, pra variar, deu um show no fim. Fez uma canção no improviso utilizando cinco palavras que o apresentador lhe falou, bem ao seu estilo, dessa vez com o violão.

Depois daquele programa fui até a estante de CD’s de meu pai ver se ele tinha algum CD de Oswaldo, e tinha: Geração Pop, um CD ‘coletânea’ que tinha músicas da carreira de Oswaldo até o ano em que foi gravado. E, como não poderia ser diferente, um encantamento. A princípio canções como Lua e Flor, Intuição, Léo e Bia e Bandolins me chamaram atenção, mas pouco tempo depois fui descobrindo a beleza de várias outras canções daquele CD: Aquela Coisa Toda, Fado Doido, Quebra Cabeça Sem Luz, Por Brilho.

Aquele foi o ponto de partida para que começasse a procurar e a baixar CD’s e mais CD’s de Oswaldo, procurar vídeos, entrevistas, programas que ele participou etc. E, cada dia conhecendo mais a obra de Oswaldo, fui me modificando ou talvez me conhecendo; conhecendo uma parte que estivesse escondida. Pouco tempo depois ele lançaria o CD Canções de Amor, sensacional, como só poderia ser.

Oswaldo com certeza foi um cara muito importante num dado momento da minha vida, e eu trago (boas) consequências disso até hoje. O meu ‘muito obrigado’ à ele fica implícito nesse texto, em sua homenagem. Com certeza esse não será meu último post falando dele.

Pra você, sem mais

Você chegou assim, tão de repente, e mudou tanta coisa.
Apresentou teu sorriso,
apresentou teu carisma
e me ensinou.
Ensinou que há muita coisa além
do que meus olhos enxergavam
e eu, que sempre me senti superior;
superior de uma maneira que eu nunca soube explicar.
Sempre pensei que controlasse
tudo que dependesse exclusivamente de mim
e apesar de todo meu belo discurso,
erroneamente pensava
que essa coisa de gostar de alguém fosse assim,
tudo pré-estabelecido,
com uma lista de requisitos.
Mas você tinha que ser diferente, não é?
Você tinha que aparecer e quebrar os meus parâmetros.
Com você tinha que ser diferente!
E agora, de alguma maneira, por algum motivo,
eu vejo seu rosto o dia todo.
Hoje eu estou aqui, aberto, quebrando meus parâmetros
e nem sempre é fácil quebrar esses parâmetros...
Talvez tudo isso seja muito clichê,
mas eu sou assim,
eu só sei ser assim
e eu espero que um dia você enxergue isso.
Eu espero um dia te dizer tudo isso...

“Eu gosto tanto de você
Que até prefiro esconder
Deixo assim ficar
Subentendido...”

Teorias, fórmulas e amar!

– Você sabe que eu sempre fui muito teórico. Sempre me destaquei na teoria... Durantes anos eu fiquei fazendo análises, construindo teses, criando fórmulas e testando situações que definissem vários aspectos do relacionamento entre pessoas, inclusive os 'amorosos'. E uma coisa era nítida. Em todas elas, quando chegava a hora de distribuir os pesos, a variável do tempo tinha um peso gigantesco. Mas dizem que só se aprende de verdade na prática, não é? E na prática eu aprendi. Ou melhor, eu percebi. Percebi que minha fórmula tinha um erro: faltava uma variável. E sempre faltará. Pelo simples fato de que essa variável é impossível de ser medida. É a tal da i-n-t-e-n-s-i-d-a-d-e. Deus, como eu pude desconsiderar isso! Talvez você não esteja entendendo o porquê desse discurso todo, na verdade eu também estou um pouco perdido, confesso. Acho que é mesmo pra te explicar, ou melhor, pra me... Quer dizer, acho que é pra tentar te dizer, e me dizer, e me mostrar que é possível, que não é delírio meu e que não há um porquê, simplesmente, fórmulas são falhas, em tão pouco tempo, eu amo você dessa maneira, intensa. E...

Ela sorria e olhava profundamente em seus olhos e ele sabia que aqueles olhos lhe diziam tudo que ele precisava. Mas ela o interrompe:

– Xii, não diz mais nada! Eu sempre soube que você era muito bom em suas teorias, percebi o valor que você dava a cada variável e escolhi respeitar. Respeitei o seu tempo, respeitei a sua intensidade, respeitei o seu amor. Respeitei porque eu não precisava ir muito longe pra ter certeza dele. Você dizia toda hora que me amava e não se dava conta disso. Seus olhares, seus sorrisos, seus afagos, tudo em você me mostrava amor, ternura e eu não precisava fazer força alguma pra enxergar o homem incrível que há por trás dessas teorias e fórmulas. As variáveis realmente têm pesos diferentes, e mais, diferentes pra cada pessoa. Eu respeito suas fórmulas, eu sou sua admiradora, sou sua FÃ e eu amo você.

Ao mestre, com carinho

Alguns são obrigados a se alimentarem de giz durante anos. Outros têm as articulações da mão comprometidas. Outros chegam em casa com o nível de estresse hiper elevado. Mas o fato é: o professor é uma das personalidades mais importantes da vida de qualquer pessoa.

Há poucos dias, infelizmente, um grande mestre nos deixou. Quem diria, hein, Tio Ed. Depois de três dias dentro de um camburão de São Paulo à Bahia preso por fazer reunião contra a Ditadura Militar. Depois te tantas e tantas batalhas como estudante, como lutador, como brasileiro, quebrando, finalmente, as amarras da ditadura dos homens egoístas e medíocres. Depois de um brilhantismo tão grande como o daqueles olhos azuis, dentro da sala de aula. Agora era a vez de vencer o mais tirano dos algozes, a morte.

Certa vez vi em um filme de guerra medieval um dos personagens dizendo que não há mérito algum em se morrer em batalha. Que você será mais um, lutando, por um rei, e morto. E, na situação em que foi colocada, eu concordo. Mas com certeza há uma alegria tremenda em viver pra ver que, de algum modo, aquela sua luta venceu. Você, com certeza, conseguiu isso Tio Ed. Ainda que não da maneira como sonhada, longe de conseguir um país perfeito, com a prostituição da palavra tantas vezes almejada, a tal da “de-mo-cra-ci-a”. Você é um vitorioso.

Talvez – muito provavelmente – o senhor não se lembre de mim. Mas eu jamais te esquecerei. Mestres como o senhor marcam a vida daqueles que enxergam a grandiosidade de uma aula sua.  Sei, que quando olhar para o céu, e uma estrela brilhar de azul, serão teus olhos brilhantes, olhando essa terra, olhando esse povo. Lembrarei de suas histórias, de seus exemplos e de sua doçura tímida disfarçada pela longa e emblemática barba.

A você Edmundo, meus mais sinceros agradecimentos. E minhas eternas saudades.

Mãos

Dois garotos, Albrecht e Albert, 17 e 16 anos respectivamente. Pobres, muito pobres. Filhos mais novos de uma família com 8. Filhos de um pai carvoeiro, explorado em minas de carvão, mesmo destino dos outros 6 filhos assim que chegavam aos 18 anos, e Albrecht estava quase lá. Mas os dois eram diferentes, e como eram: tinha um incrível talento para as artes, daqueles que só pode ser aquilo que chamam de dom, porque pintavam quadros como jamais alguém imaginara que se faria em uma família de minerador.

Albert, o mais novo, era ainda mais especial. Tinha traços jamais vistos. Seu pai sabia disso, e chorava internamente todas as noites por não poder fornecer aos filhos condições para viverem de sua arte. Moravam na Alemanha, numa pequena cidade do interior, e havia Nürnberg uma famosíssima Escola de Artes, mas era inacessível para eles. Seu pai, só poderia pagar a mensalidade, os materiais necessários e as despesas de moradia se juntasse tudo o que ganhara durante o mês de trabalho, e ainda assim só seria suficiente para um, mas aí o que sua família iria comer? Grande era a tristeza daquele pai.

Certa noite aquele pai decidiu acabar com aquilo. No dia seguinte comunicou aos dois meninos que se preparassem, pois amanhã iriam à mina de carvão com o pai e começariam já a trabalhar. Os meninos choraram. Passaram a noite em claro pensando em uma forma de mudar isso, e com o sol já nascendo pensaram em algo. Um dos irmãos trabalharia na mina, e todo dinheiro que ganhasse mandaria ao outro, que estudaria na tal escola, e o outro, após os 4 anos de curso faria o mesmo, pagando o curso do outro irmão. Mas e aí, como decidir qual iria para a mina e qual iria para a Universidade? Quis o destino se meter nessa história. Tirariam na sorte. Cara ou Coroa. E o destino se meteu. Albrecht ganhou.

Albrecht foi para a Universidade, conheceu professores brilhantes, e com 1 ano de curso seus quadros já eram conhecidos. Com 2 anos de curso, seus quadros já valiam mais do que os de seus professores, e ele já se mantinha praticamente sozinho. Albrecht completa o curso sendo já um pintor conhecido em boa parte da Alemanha, e como prometido, volta pra casa.

Ao chegar, compra um vinho, uma boa carne e faz um jantar para a família; seu irmão Albert, já casado e pai, o principal convidado. Todos sentados a mesa, Albrecht levanta-se com a taça na mão, pede a todos que se levantem também porque ele gostaria de dizer algo; todos o fazem, exceto Albert. Ainda assim ele continua: “Gostaria de agradecer ao meu irmão Albert, que durante 4 anos de sua vida trabalhou naquela mina de carvão para pagar meus estudos, e lhe dizer meu irmão, que como prometido naquele dia, eu vou pagar seus estudos e todas as suas despesas durante os próximos 4 anos. Hoje sou um pintor conhecido em toda a Alemanha e o que ganho com meus quadros é suficiente”. Lágrimas escorriam pelo rosto dos familiares e Albert da mesma maneira, sentado e quieto. Albert se pronuncia: “Meu irmão, fico feliz que tudo tenha dado certo em sua vida, e que você tenha voltado para cumprir sua parte no acordo. Eu trabalhei 4 anos nessas minas de carvão, e durante esses 4 anos eu quebrei todos os dedos das minhas mãos duas vezes, fiz um profundo corte em minha mão direita que afetou minhas articulações e hoje não consigo sequer segurar uma taça para brindar contigo. Aqueles traços minuciosos em uma tela eu já não sou mais capaz de fazê-los.”.

Albrecht não se conforma. Aquilo não era certo. Seu irmão era um pintor muito melhor do que ele, e hoje estava incapacitado de pintar. Então Albrecht decide o que faria. Pintou um quadro, baseado em seu irmão. O quadro retrata duas mãos juntas, como se fossem rezar, uma intacta, mãos de um pintor, a outra, destroçada, mãos de um carvoeiro. Ele prometera que todo o dinheiro arrecadado com o quadro seria de seu irmão. Prometera também que nunca mais uma pessoa abandonaria sua arte por falta de dinheiro. Aquele viria a se tornar um dos quadros mais famosos da Alemanha e do mundo, valendo milhões e milhões de qualquer moeda. Albrecht fundaria, também, uma Escola de Artes totalmente gratuita em Nürnberg, e na entrada dessa escola há uma réplica do quadro e uma placa em bronze dizendo: “Ninguém vence sozinho!”.

Post-scriptum: Essa história circula na web como verdadeira mas não é possível comprovar sua veracidade tampouco sua falsidade. Logo, a história não é de minha autoria mas o texto sim.

Post-post-scriptum: Esse texto foi postado como marca de uma vitória conquistada. Foi meu nome que apareceu lá, mas a vitória é de todos nós.

Real, assim, cheio de defeitos

Desce daí meu amor, desce!
São esses teus olhos, castanhos, indecifráveis, como teu amor por mim.
É esse teu jeito simples de viver, de sorrir loucamente.

Desce daí meu amor, desce!
É essa tua covardia, abrindo mão dos sonhos e fantasias
É a lembrança da tua voz ao pé do ouvido
É esse teu mistério cercado de ternura.

Desce daí meu amor, desce!
É esse teu jeito de dizer sem palavras
É essa tua mania de voar por todo o mar
É o meu pensamento que só fica em você
É o vento que te traz pra mim.

Desce daí meu amor, desce!
Sou eu aqui, largado num canto
É você aí, idealizando
Sou eu aqui, ferido
É você aí em carne-viva.

Desce daí meu amor, desce!
Desce desse teu castelo de fingimentos
E volta pro meu casebre de sentimentos.

Anagrama

Vence! Valoriza! Soma! Fôrça! Corrige! Assina!
Eletriza! Edifica! Efetiva! Multiplica! Calma! Cála!
Simplifica! Sacramenta! Saboreia! Equaciona! Ioniza!
Testa! Tenta! Vamos! Engata! Oxida! Dói! Reage! Relaciona!
Idealiza! Impulsiona! Identifica! Compara! Emite! Altera! Libera!
Balanceia! Brilha! Denomina! Troca! Marca! Cresce! Engata!
Ultrapassa! Une! Fórma! Quebra! Descobre! Absorve!
Lidera! Levita! Prolonga! Usa! Estoca! Vem! Logo!
Ah! Não! Aguento! Mais!
Reset!

RES: RES:

É incrível o dom que você tem de me emocionar e como dia após dia você se supera. E é incrível também como as palavras sempre nos transmitiram tanta coisa, tanta energia. Ah, minha querida, há tanto tempo espero notícias suas.

É minha querida, o fogo está aí, para todos nós. Infelizmente não há como nos prepararmos para ele, nem sei se deveríamos nos preparar, mas ora ou outra ele vem, e pior, ora ou outra ele volta. Obrigado por me dizer que o fogo vem, mas milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Isso nos diz tanta coisa, não é?

Desculpe-me o duplo plágio, mas você é a princesa de um romance clássico-atual, me perdoem os literários. Enche-me de orgulho, um reles cavaleiro sonhador e que mal sabe escrever, ser retratado num romance da mocinha. Romance não, filosofias de mesa de bar, como ela mesma gosta de chamar e que NÓS tanto gostamos.

Ah minha princesa, como eu queria agora aquele chopp. Uma coca-cola ou um sorvete servem. Aliás, queria mesmo aquelas mãos dadas. Na verdade estamos de mãos dadas, não estamos? Há tanto tempo ando de mãos dadas contigo que quando não consigo senti-las me sinto vazio. Não some não minha querida, tuas mãos, tuas palavras, tudo em ti me faz falta. Desculpe-me pela melosidade, deve ser a saudade.

Queria eu ter parte da tua nobreza e conseguir escrever como tu, e te responder a altura. Talvez um dia possa te mandar uma carta formal, como um general ou talvez até como um rei, mas até lá, sou um reles cavaleiro e tu a encantadora princesa, digna de ser amada. Obrigado por tudo!

Aquela tarde de sol

Era uma tarde de sol a pino, como não se via há duas semanas, seguidas de chuva, apesar do forte calor que lá fazia durante todo o ano.

Lá estava João, sentado no extenso banco ladrilhado, lendo um livro como costumava fazer ora porque gostava ora para passar o tempo. Fazia força para ignorar o barulho ao redor e concentrar-se na leitura. Pensara em colocar um fone de ouvido, mas de certo isso lhe tiraria a concentração do livro, ou, ao menos, a dividiria entre o livro e a música.

E como nesses segundos que definitivamente mudam sua vida, por mero acaso João levanta a cabeça do livro e olha simplesmente para o nada, então ela surge.

No ápice da escada João vê surgir aquela que com certeza era a mulher mais linda que já vira na vida. Ela desce lentamente as escadas, mostrando toda sua beleza e sabendo dela, mas jamais de forma arrogante. Ela usava um vestido, desses que se usa no verão: branco, com estampas florais; uma sandália rasteira, brincos de ouro discretos e um fino colar com um pingente que não conseguira identificar. Seu vestido balançava de um lado ao outro à medida que descia os degraus.

Encantara-se por muito além do que os belos cabelos loiros naturais e despreocupados e aqueles olhos castanhos, que com certeza lhe dava mais beleza ante um par claro. Encantara-se pelos mais singelos gestos que a tal moça de vestido floral fazia. O modo como sorria, o modo como dava um passo após o outro descendo a escada, o modo como carregava a bolsa em um dos ombros e livros apoiados no peito pela outra mão.

João não consegue sequer piscar. Viaja anos em segundos. Imagina-a advogada, médica, dentista, arquiteta. Qualquer profissão lhe cairia bem. Longe nos pensamentos João ouve um grito:

-Thaís!

Ela responde. Thaís, esse era o nome daquela que conseguira desligar João completamente daquilo que se passava ao seu redor. João os imaginou namorados, caminhando de mãos dadas em uma praia, mas sua cidade não tinha praia, imaginou então numa bela praça, tentou fugir da lembrança de que sua cidade não tinha belas praças, imaginou por fim caminhando num shopping, numa calçada qualquer, que fosse de mãos dadas.

Em um passo foi ao dia em que a pediria em noivado jantando em um restaurante confortável com uma música agradável ao fundo, como ela sorriria naquele momento, se estaria surpresa, se gostara do anel que ele escolheu; pensou ainda nela vestida de véu e grinalda, abraçada a seu pai entrando na igreja para casarem; o casamento dos sonhos, como ela mesma dizia. Ela, perfeccionista como poucas se preocupara com os mínimos detalhes do casório. Não que João não se preocupasse, mas sabia que aquele era um dos momentos do qual ela sempre sonhou.

Imaginou como seriam seus filhos, seus dois filhos, como ela sempre disse que gostaria. Seria um casal ou dois do mesmo sexo? Seriam loiros como ela ou morenos como ele? Herdariam o perfeccionismo da mãe ou a serenidade do pai? Concluiu que pouco importaria isso.

E com a mesma rapidez que apareceu, Thaís vai embora. Com o belo vestido floral, como alguém que desfila nas nuvens ela termina de descer a escada, e após alguns passos sai da vista de João, que só conseguira ouvir o ‘tchau!’ dito pelo porteiro, de certo respondendo ao cumprimento que ela lhe dera em um tom baixo de voz, e a imagina indo embora.

João ficaria com aquela imagem guardada em sua mente durante anos, mas naquele momento teve uma certeza: seus caminhos se cruzariam novamente, e até lá, ele se prepararia para conquistá-la.

"Cem" sentido

A palavra é o vinho tinto de sangue que transborda na boca e engasga como uma faca que perfura e te rasga do esôfago ao intestino como os vermes asquerosos que lamberão teu corpo como as moscas e baratas que curarão tuas feridas como o chicote sado que marcará teu corpo como o chiclete de merda mascado causando tua cárie como os dentes afiados que mascam o chiclete de bosta como o dinheiro sujo e maldito que lambuza tua cara e teu rabo e te compra a alma e te come todo como o fogo que te arde aos poucos e te devora lentamente como um leproso como a cova cavada e fria que te aguarda e te acompanha louca pelo teu calor como a carne que a terra come e te reduz a nada sem piedade sem dinheiro sem palavra sem vinho.

Olho treinado

Incrível como as mulheres, apesar de muito observadoras e perceptivas, geralmente erram nos seus pré-julgamentos. Elas enxergam o que querem enxergar e acabam por valorizar demais aqueles que não valem tanto, e desvalorizam aqueles que deveras são valiosos.

Por isso não é raro encontrar mulheres esteticamente muito belas acompanhadas de homens que não o são tanto assim. Não que elas não gostem de homens bonitos, mas essas, provavelmente já fizeram julgamentos errados, pagaram por isso e mudaram sua maneira de enxergar, buscando ver aquilo que realmente as atrai e as faz bem; aquilo que vai muito além da beleza estética. Muito além.

No mínimo engraçado


Engraçado como hoje, em sua grande parte, as melhores referencias culturais estouraram no passado.

Engraçado como hoje, as músicas que mais tocam são as que menos dizem.

Engraçado como hoje, coloca-se uma dúzia de palavras e faz-se uma música. Sim, uma música. Não uma canção.

Engraçado como hoje os bons são os maus.

Os melhores caras são os que fazem mais mulheres sofrerem. Os que pegam mais. Que realidade deturpada, não?

Onde tudo é um jogo de interesses e o povo é tratado como gado, induzido a fazer isso, aquilo, e aquilo outro. Até marcarem seu corpo com brasa quente eles marcam, e você nem percebe.

Um protesto contra todo tipo de mídia brasileira, que em grande parte é corrompida agindo de acordo com interesses de uma minoria de caráter duvidoso e propagando uma alienação disfarçada à população brasileira.

Apenas mais um desabafo.