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Subentendido

Ela chegou correndo e nem ouviu quando sua mãe lhe disse que havia comida no forno. Trancou-se em seu quarto, seu cantinho, sua paz, o lugar que com certeza mais sabia seus segredos, o lugar onde ela tinha certeza de que era ela. Lamentou-se e chorou durante cinco dias. O choro engasgado há tempos, engolido; e sob as lágrimas escreveu um bilhete que depositou no bolso esquerdo do casaco de listras escuras, que ela tanto gostava porque nele sentia, quase impregnado, o agora dolorido e delicioso cheiro dele. Apesar do ocorrido, não tinha dúvidas de que o amava e preferia depositar ali os bons momentos, o que ela realmente deveria se lembrar. “Uma noite iluminada, um abraço sincero, um afago nos cabelos, um momento de silêncio, um tocar de lábios, um entrelaçar de mãos, uma saudade, você.”

Ele, ao seu modo, também a amava e também sofria. Sofria calado. Pensava e repensava aquele diálogo milhares de vezes. Aquela cena continuava intacta em sua memória. Por que colocou as palavras daquela maneira? Por que ela não respondeu dessa forma? As possibilidades o perturbavam em tudo que fazia e quando não era perturbado pela cena, lembrava-se dos momentos com ela e de como eles eram muito melhores. Desejava tê-la em tudo: na rua que caminhava, nas conversas que tinha, nas músicas que ouvia, nos filmes que assistia. Nada disso a tirava de sua mente, pelo contrário. Teve por fim a certeza de que as melhores perguntas são aquelas feitas pelo olhar, pois é do olhar que obteria a melhor resposta.

Ela se lembrava de como, apesar de muito sociável e de fazer amizades facilmente, era cheia de não-me-toques e como isso, com ele, foi se modificando. Ele de como, apesar de também bastante sociável, passava uma imagem de arrogância, parte devido ao seu perfeccionismo, que sabia que tinha mas preferia não modificar; a outra parte era puramente impressão.

Se isso fosse um filme daqueles bem água-com-açúcar, com certeza nessa parte entraria a cena dos dois lembrando das mesmas coisas: os filmes que ele a ensinou a gostar, as músicas que ela o apresentou, as leituras que, de diferentes maneiras, descobriram juntos. De fato se lembraram.

Não quis ligar, não quis mandar mensagem, não quis falar pela internet. Deixou o carro em casa e saiu caminhando, sem rumo, e quando percebeu estava em frente a casa dela. Ficou ali parado por alguns segundos, talvez até alguns minutos, e caminhou mais um pouquinho. Foi em direção àquela pracinha que ficava a poucos metros da rua dela e que guardava tantas recordações daquele casal. Sentou no mesmo banco que sempre sentavam e como um ator, repassou algumas vezes o discurso ensaiado.

Tocou a campainha. Tivera naquele momento a sensação de que maquiagem e roupa nenhuma a deixava tão bonita quanto o natural; ela o atendeu. Quando se olharam não era preciso dizer nada, os dois naquele momento sabiam o que queriam e nenhuma palavra seria necessária. Ele, entretanto, no alto de sua sensatez – por vezes até arrogante – não abriu mão de uma conversa. Refizera a cena tantas vezes, não haveria como não dar certo. Ela também, lá no fundo, não abriria mão da conversa. Ambos queriam as mesmas coisas: dizer e ouvir... Perdão!

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