Ele sempre se esquecia como a conheceu. Ela, com toda aquela paciência, o lembrava. Foi nas aulas de natação. Tinham quatro anos. Logo de cara ficaram amigos de piscina, só queriam brincar um com o outro. Suas mães também logo ficaram amigas. Descobriram depois que ela morava uma rua acima da dele. A partir dali sempre fizeram tudo juntos: escola, inglês, música, musculação... Quando estavam na segunda série ela se mudou para o mesmo colégio que ele. Trocaram juntos novamente ao entrar no Ensino Médio.
Cresceram e descobriram o mundo juntos. Brigaram mil vezes. Fizeram as pazes mil e uma. Descobriram entre eles o que era a amizade, o que era a cumplicidade, o que era o carinho, o que era o querer-bem, o que era preocupar-se com o outro, o que era consolar-se com o outro. Foram os primeiros um do outro em tudo: a primeira briga, as primeiras pazes, o primeiro beijo, a primeira transa, tudo. Havia entre eles um amor diferente. Tão diferente que não vale a pena complicá-lo, pois era um amor simples. Se amavam do jeito deles e pronto.
Quando tinha 18 anos ele finalmente gravou uma data. Usaria aquela informação quase um ano depois. Era a data em que eles se conheceram. Ela havia há uns anos procurado os registros da escola de natação e descobriu qual foi o seu primeiro dia de aula. Agora eles tinham uma data! E naquele dia, já quase um ano depois, ele se lembrou. Passou em frente à uma loja de roupas para bebê e parou ali por alguns instantes e entrou; sem explicação, simplesmente comprou um sapatinho rosa. Passou também na confeitaria e comprou dois pequenos bolos, os tais cupcakes, e colocou as velas de 15 nos dois.
Dona Arlete o atendeu na porta e nem perguntou o que eram aqueles embrulhos que ele carregava, sabia que era para sua filha. Apenas disse que ela estava no quarto. Ela estava terminando de se arrumar, iria buscá-lo de surpresa pra algum tipo de comemoração.
– Sabe, hoje eu tava passeando sem rumo e passei em frente à uma lojinha de bebê. Eu parei ali na frente da loja, fiquei parecendo um louco, pensando. Pensei algo muito importante e aí entrei! Eu pensei na gente. E... a gente é como uma pessoa, sabia?
Ela o olhou torto, sem entender a besteira que ele havia dito. Ele prosseguiu:
- É! Sério! Nossa amizade começou como um bebêzinho, bem pequeno, dócil, frágil, encantador... E foi crescendo. Virou uma criança, virou uma pré-adolescente e hoje a nossa filha debuta, 15 anos! Então eu comprei uma lembrancinha pra você sempre lembrar disso, da nossa filha. É loucura, eu sei, mas você me conhece! – disse ele entregando os sapatinhos de bebê e sorrindo.
Ela o olhou torto, sem entender a besteira que ele havia dito. Ele prosseguiu:
- É! Sério! Nossa amizade começou como um bebêzinho, bem pequeno, dócil, frágil, encantador... E foi crescendo. Virou uma criança, virou uma pré-adolescente e hoje a nossa filha debuta, 15 anos! Então eu comprei uma lembrancinha pra você sempre lembrar disso, da nossa filha. É loucura, eu sei, mas você me conhece! – disse ele entregando os sapatinhos de bebê e sorrindo.
Ela riu muito e o abraçou emocionada. Ele mostrou então os bolos que havia comprado. De limão com nozes, o sabor especial deles, que os traziam boas recordações. Ele pegou então o violão e tocou pra ela. Ela sempre disse adorava quando ele dedilhava aquele violão. Depois os dois tocaram juntos no teclado que havia no quarto dela, como faziam quando tiveram as aulas de piano.
“...Sempre tem gente pra chamar de nós
Sejam milhares, centenas ou dois
Ficam no tempo os torneios da voz
Não foi só ontem, é hoje e depois
São momentos lá dentro de nós
São outros ventos que vêm do pulmão
E ganham cores na altura da voz
E os que viverem verão...”
Sejam milhares, centenas ou dois
Ficam no tempo os torneios da voz
Não foi só ontem, é hoje e depois
São momentos lá dentro de nós
São outros ventos que vêm do pulmão
E ganham cores na altura da voz
E os que viverem verão...”
Ela era o “nós” dele. E ele o dela. Os olhos marejados dos dois faziam as palavras desnecessárias.
Naquela noite extravasaram aquele amor de todas as formas.
Naquela noite extravasaram aquele amor de todas as formas.
– Quero que você me prometa uma coisa. – Disse ela enquanto estavam abraçados.
Ele olhou desconfiado.
– Calma, não precisa se assustar, é simples. Quero que você me prometa que se algum dia, de alguma maneira, eu não estiver mais ao seu lado, você vai ser feliz sem mim, você vai continuar cuidando da nossa filha.
– Por que isso agora?
– Promete vai!
Pra acabar logo com aquilo ele prometeu.
– Que papo estranho...
– Chega, acabou já! Obrigada! – Respondeu ela sorrindo.
Ele não sabe se ela pressentia alguma coisa, sempre fora muito cético. O fato é que três semanas depois ele passou a conviver cumprindo essa promessa. Pra sempre. Ele, pela primeira vez, ia tocar e receber um cachê por isso. Ela não queria perder isso por nada. Era na cidade vizinha. Ele foi cedo com os outros rapazes pra se organizarem no local, ela iria depois com as amigas. Não chegou a vê-lo tocar. Nem ele tocou. Um rapaz embriagado, junto com seus amigos, invadiu a contramão e chocou-se na diagonal do motorista, sem chance alguma de defesa, mesmo pra ela que dirigia bem. Duas amigas tiveram alguma fratura e a outra apenas alguns arranhões. Essa que estava bem ligou para a ambulância e ligou direto pra ele.
– Aconteceu um acidente aqui, as meninas tão todas machucadas. – Disse toda afobada.
– Calma, onde vocês estão? Tô indo praí!
– Estamos logo na entrada da cidade, corre pra cá! – Desligou o telefone.
Quando ele chegou a ambulância já havia chegado e ele foi impedido de ver o atendimento. Ela faleceu no caminho. Abriu os olhos por alguns segundos, cochichou algo pro enfermeiro e faleceu.
– Lembra ele que ele me prometeu. – Foi o que ela com muita dificuldade falou, disse o enfermeiro.
Ele perdeu o chão com aquela notícia. Entrou em pânico. Sentia-se o culpado, mesmo não tendo culpa alguma. Somente os sedativos e o tempo o amenizaram. De vez em quando ele ia visitar Dona Arlete. Sentia uma dor imensa indo àquela casa, mas não conseguia evitar.
– Dona Arlete, a minha visita lhe causa dor? – Perguntou ele sem mais nem menos.
– Meu filho, tenha certeza que causaria uma dor ainda maior se você não viesse. A dor existe sempre, todo dia, toda hora. Quando eu não agüento mais eu choro, choro o tempo que for necessário, então eu ouço a voz dela dizendo que não devo mais chorar, que devo continuar.
– Eu também ouço essa voz. – Respondeu ele já com a voz trêmula.
Dona Arlete o abraçou. Ela era a única que sabia determinada informação, mas preferia omitir. Prometeu pra si mesma que guardaria isso como um segredo entre ela e a filha. O fato é que ela seria avó quando sua filha faleceu. Guardar aquilo de certo evitaria sofrimentos, ainda que lhe custasse uma dor ainda maior.
Ele passou um tempo perdido, sem vontade pra nada. Limitava-se às visitas para Dona Arlete. Não saia com os amigos, não tocava mais. Nem à faculdade conseguia ir. Mas algo martelava em sua mente: a promessa! Ele sentia que de algum lugar ela juntava suas forças pra dizê-lo que ele havia prometido, e que ele deveria também juntar suas forças e cumprí-la. Ele o fez! Não soube explicar o por que, mas passou a praticamente não comentar mais sobre ela nem sobre o ocorrido, exceto quando visitava Dona Arlete ou quando deitava no colo de sua mãe. Fez novos amigos, terminou a faculdade, foi trabalhar, começou um namoro sério, enfim, foi tentar cumprir. De fato ele não acreditava que era feliz, talvez não o fosse mesmo, mas preferia continuar com a máscara. Levaria aquilo até o fim!
Eram namorados há três anos e ela nunca o tinha visto chorando. Mas naquele dia ele chorava como uma criança. Havia ido visitá-lo no dia errado. Ou no dia certo. Quando abriu a porta do quarto e viu aquilo não disse nada, apenas sentou-se ao seu lado. Algum tempo depois o abraçou.
– Me promete duas coisas? – Perguntou ele ainda chorando.
– Claro!
– Promete que nunca vai me fazer prometer alguma coisa que estará fora do meu alcance?
Ela não entendeu mas concordou.
– E a segunda?
– Promete que a nossa filha se chamará Lara?
– Lara?
Ele caiu em prantos.
– Você quer me contar alguma coisa?
Ele abriu a mão que estava cerrada e a mostrou um sapatinho de bebê, rosa. E contou. Da maneira que conseguiu mas contou. Contou que com 19 anos perdera o chão. Perdera Lara! Sua melhor amiga, sua melhor companheira, sua melhor tudo.
Apenas omitiu que perdera também a mulher de sua vida, ali.
Apenas omitiu que perdera também a mulher de sua vida, ali.
Ela chorou junto. Sentiu uma pontinha de algo, talvez fosse ciúmes, mas entendeu que a dor de seu namorado ali era muito maior. Entendeu que aquele não era somente um choro de dor. Era um choro de amor. Era o choro de alguém que conheceu o que era o amor e lhe foi tirado, mas, sobretudo, ele amou. Não quis perguntar mais, não quis saber como fora aquele amor, se fora um amor de irmãos, de amigos, de casal. Apenas chorou junto.
so sad
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