– O que você faria se encontrasse uma mulher e sentisse coisas por ela que se encaixassem perfeitamente em tudo aquilo que você sempre idealizou que fosse o que chamam de amor?
– O que você faria se você se visse loucamente apaixonado, amando aquela mulher como jamais imaginara que um dia amaria alguém?
– O que você faria se casado com ela, visse todo aquele amor sendo reprimido, sucumbindo dia após dia na luta de recuperar seu espaço e mostrar que ele está ali, do mesmo tamanho que sempre foi, mas que estão tentando escondê-lo?
– O que você faria se o convívio entre vocês se tornasse insustentável e apesar de ver nitidamente, você não soubesse o que fazer pra evitar que a mulher de sua vida lhe escape por entre os dedos?
Foi com o eco dessas quatro questões ditas pausadamente por lágrimas e alguns soluços que acordei, recordando a última de uma das já rotineiras discussões com Letícia. Com um final de semana desastroso como aquele, minha semana não prometia ser muito melhor.
– Bia! Bia! Acorda minha querida, já está na hora. – era Letícia chamando nossa filha de quatro anos.
Bia era um doce. Traquina, mas um doce. Adorava me abraçar, pular em meu colo, bagunçar meu cabelo. Deve ter puxado essa expressividade de amor da mãe; não que eu não o faça, mas sempre fui mais discreto nas ações. Ela, sobretudo, vinha sendo nos últimos tempos a única pessoa a conseguir me fazer sorrir por alguns instantes.
Letícia saiu levando Bia para a escola e de lá iria para o seu escritório de Arquitetura. Eu me sentei na banqueta que sempre fora de enfeite para o balcão da cozinha, com minha caneca de café da mão, ainda de pijamas, e esqueci-me do tempo. Pela primeira vez liguei pra minha secretária e pedi que ela transferisse meus clientes para outro horário; tudo tem uma primeira vez, mesmo pros dentistas mais corretos.
Se essa era uma segunda-feira para primeiras vezes, troquei de roupa e sem rumo certo peguei o carro e saí. O sol de Salvador, pra variar, estava absurdo; mas ainda assim o fui. Sem perceber sai do Costa Azul, passei pela Pituba, desci pela Amaralina, passeei pelo Rio Vermelho, Ondina e ao chegar à Barra parei. Não me lembrava da última vez que tinha vindo a este farol, o que me deixou envergonhado por ora.
Deixei o carro por lá mesmo e entrei no primeiro bar que vi aberto. “Um whisky por favor!”. – Foi mesmo o “Doutor Alberto” quem falou essa frase? – Desacreditei de mim e percebi que aquele não seria um dia como todos os outros, só cabia a mim permitir que ele me ensinasse pouco ou muito. Achei melhor parar com o whisky e beber mesmo uma cervejinha, mas isso fiz sentado na areia praiana, dividindo o olhar entre o farol e o mar. Alguns mergulhos e algumas latinhas, lá estava eu bêbado. Ou quase isso. E foi aí que meu dia tomou forma.
Não lembrava mais como era a sensação de estar bêbado. E nunca antes fiquei bêbado por amor. Não tinha dúvidas de que aquela viagem seria repleta de surpresas, a começar pelas lembranças que vieram...
– Sabe o que eu mais gosto em você? A sua segurança. A segurança que você me transmite em tudo que você faz, desde o menor gesto até coisas grandes. A maneira como você aceita um simples convite, a maneira como você me convida pras suas aventuras, a maneira que você nunca torna suas dificuldades maiores do que elas são; até a maneira como você dirige é segura. – Foi o que disse Letícia já com um sorriso no final da frase, enquanto viajávamos sem rumo em uma aventura a dois. Ri quando me lembrei do “sem rumo”. Tínhamos por volta dos 21, 22 anos e involuntariamente me perguntei se aquele cara já havia se perdido pelo caminho. Aquilo foi também o algo palpável que eu precisava pra confirmar que aquela era a mulher da minha vida e pedi-la em casamento 27 dias depois.
Mesmo quando jovem eu não tinha dúvidas, sempre me achei um porto seguro, tanto pra mim mesmo quanto pra ela. E eu que sempre fui assim tão seguro, lembrava de cada palavra daquele dia e ficava cada vez mais sem chão. Agora, mais uma vez, não tinha dúvidas; só não tinha soluções.
Fui então um pouco mais longe, lembrando de quando a vi, somente a vi, pela primeira vez no elevador daquela universidade gigantesca, que mais parecia um shopping. A maneira como ela entrou, como estava vestida com um vestidinho solto e sandálias rasteiras, linda! A maneira como o vento levemente passou por seus cabelos, como ela tirou os óculos escuros que usava e o prendeu acima da cabeça com uma cara de séria, mas ainda uma cara de menina. Tínhamos ali ambos 17 anos e a vida pela frente.
Aos 17 aquele cara que não tinha medo de jogar estava a todo vapor, então disfarçadamente a esperei no hall da faculdade pra tentar puxar algum assunto. Sim, a vida é uma caixinha de surpresas, e naquele momento eu estava começando a abrir a minha.
Sem perceber as lágrimas já estavam escorrendo. Não sei se sempre fui um bêbado chorão mas tudo indicava que naquela manhã eu seria. Então minhas lembranças começaram a apelar: os passeios, as viagens, as aventuras, as músicas, os filmes; uma por uma me passaram pela mente, em forma de flashes. Covardia!
Percebi então que aquelas lágrimas tinham um pouco de tristeza mas em sua essência não eram tristes. Um sorriso começava a brotar em minha face quando me lembrei das trapalhadas que fiz na primeira vez que tomamos sorvete juntos. Depois daquele elevador ficamos amigos, papeávamos sempre que possível e dessa amizade saudável surgiu o nosso amor, à nossa maneira.
Lembrei então do nosso início de namoro, onde aproveitávamos qualquer horinha vaga na faculdade para namorar um pouquinho entre as árvores. Lembrei também das vezes que a acompanhava até em casa só para ganhar uns beijinhos ao pé do muro. E como eu era feliz com aquilo! Por mais inevitável que fosse o pensamento de “será que aquele cara se perdeu?” eu não queria aquilo, não agora; queria lembrar mais e mais, queria me deliciar com aquelas lembranças naquele momento. Talvez por isso as lembranças tenham algo especial, porque elas ficam para sempre, independente se aquelas pessoas mudaram.
Fui então à memória do nosso primeiro Reveillon juntos e uma das melhores declarações de amor que recebi. – A essa altura eu já me debulhava em lágrimas. – O clima era lindo, pela primeira vez passaria o Reveillon acompanhado e aquilo me trazia sensações que eu não sabia descrever. Pode parecer besteira, mas eu estava adorando. Eis que quando os fogos começaram a brilhar no céu, juntamente com o primeiro abraço, vieram as palavras: “meu coração dispara fogos de artifício como esses toda vez que eu te beijo, desde a primeira vez. E desde a primeira vez eu soube que era você.”. E aquele jovem todo seguro de si ficou sem reação! Hoje eu penso que lá no fundo eu também já sabia que era ela, e se não sabia naquela época, a cada minuto que se passava agora eu tinha mais certeza.
Eu já tinha parado de beber há um tempinho, pouco antes de Jorge, um conhecido, me encontrar na praia. Ele obviamente percebeu que eu estava um pouco alterado e insistiu em me levar pra casa, mas eu recusei. Aquele meu lado mais certinho sentiu naquela hora que “daria merda”, então corri pra comer algo que cortasse a bebida. Eu só não esperava que Jorge faria o que fez: ligou pra Letícia!
Ela atravessou a cidade o mais rápido que pôde e logo chegou desesperada na praia me procurando. Não era pra menos, imagino o que Jorge não havia falado no telefone. Eu sabia que deveria parecer o mais sóbrio possível naquela hora, caso contrário as coisas poderiam afundar de vez. Letícia olhava pra todos os lados enquanto caminhava sem rumo na praia me procurando; eu já a tinha visto há algum tempo, então calmamente me aproximei. Ela, assustada ao meu toque, só teve a reação de me abraçar muito forte, seguidos de uns tapas, lógico.
Não foi nada fácil convencê-la a sentar-se na areia, ainda mais com o traje social que ela vestia. Tirei então seus sapatos e sentei-me abraçado com ela por algum tempo, sem falar nada. Comecei então a contar a aventura que tivera naquela manhã, detalhe por detalhe.
– Eu me dei conta de que prefiro brigar com você do que amar outra pessoa. Percebi que finais felizes nem sempre são clichês. E se é clichê dizer que a vida é escrever um livro sem borracha, que o meu clichê seja dobrado, pois eu quero um final feliz.
Nos emocionamos juntos, rimos juntos, choramos juntos... Eu não podia estar tão errado assim, aquela era sim a mulher da minha vida! Finalmente eu consegui ultrapassar a barreira teórica e sentir o que quis dizer Renato Russo no finalzinho daquela canção:
“E nossa história não estará pelo avesso assim,
Sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás,
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos...”
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