Era uma tarde de sol a pino, como não se via há duas semanas, seguidas de chuva, apesar do forte calor que lá fazia durante todo o ano.
Lá estava João, sentado no extenso banco ladrilhado, lendo um livro como costumava fazer ora porque gostava ora para passar o tempo. Fazia força para ignorar o barulho ao redor e concentrar-se na leitura. Pensara em colocar um fone de ouvido, mas de certo isso lhe tiraria a concentração do livro, ou, ao menos, a dividiria entre o livro e a música.
E como nesses segundos que definitivamente mudam sua vida, por mero acaso João levanta a cabeça do livro e olha simplesmente para o nada, então ela surge.
No ápice da escada João vê surgir aquela que com certeza era a mulher mais linda que já vira na vida. Ela desce lentamente as escadas, mostrando toda sua beleza e sabendo dela, mas jamais de forma arrogante. Ela usava um vestido, desses que se usa no verão: branco, com estampas florais; uma sandália rasteira, brincos de ouro discretos e um fino colar com um pingente que não conseguira identificar. Seu vestido balançava de um lado ao outro à medida que descia os degraus.
Encantara-se por muito além do que os belos cabelos loiros naturais e despreocupados e aqueles olhos castanhos, que com certeza lhe dava mais beleza ante um par claro. Encantara-se pelos mais singelos gestos que a tal moça de vestido floral fazia. O modo como sorria, o modo como dava um passo após o outro descendo a escada, o modo como carregava a bolsa em um dos ombros e livros apoiados no peito pela outra mão.
João não consegue sequer piscar. Viaja anos em segundos. Imagina-a advogada, médica, dentista, arquiteta. Qualquer profissão lhe cairia bem. Longe nos pensamentos João ouve um grito:
-Thaís!
Ela responde. Thaís, esse era o nome daquela que conseguira desligar João completamente daquilo que se passava ao seu redor. João os imaginou namorados, caminhando de mãos dadas em uma praia, mas sua cidade não tinha praia, imaginou então numa bela praça, tentou fugir da lembrança de que sua cidade não tinha belas praças, imaginou por fim caminhando num shopping, numa calçada qualquer, que fosse de mãos dadas.
Em um passo foi ao dia em que a pediria em noivado jantando em um restaurante confortável com uma música agradável ao fundo, como ela sorriria naquele momento, se estaria surpresa, se gostara do anel que ele escolheu; pensou ainda nela vestida de véu e grinalda, abraçada a seu pai entrando na igreja para casarem; o casamento dos sonhos, como ela mesma dizia. Ela, perfeccionista como poucas se preocupara com os mínimos detalhes do casório. Não que João não se preocupasse, mas sabia que aquele era um dos momentos do qual ela sempre sonhou.
Imaginou como seriam seus filhos, seus dois filhos, como ela sempre disse que gostaria. Seria um casal ou dois do mesmo sexo? Seriam loiros como ela ou morenos como ele? Herdariam o perfeccionismo da mãe ou a serenidade do pai? Concluiu que pouco importaria isso.
E com a mesma rapidez que apareceu, Thaís vai embora. Com o belo vestido floral, como alguém que desfila nas nuvens ela termina de descer a escada, e após alguns passos sai da vista de João, que só conseguira ouvir o ‘tchau!’ dito pelo porteiro, de certo respondendo ao cumprimento que ela lhe dera em um tom baixo de voz, e a imagina indo embora.
João ficaria com aquela imagem guardada em sua mente durante anos, mas naquele momento teve uma certeza: seus caminhos se cruzariam novamente, e até lá, ele se prepararia para conquistá-la.
Lindo! rs Que inspiração essa, en? hahaha
ResponderExcluirMuito bom mesmo! Parabéns. ^^