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Confissão

Lembrou-se da primeira vez que a viu, na sorveteria Flor de Lis que ficava bem no centro daquele pequeno comércio na parede lateral da pracinha. Gostava daquela sorveteria porque de dentro dela ficava admirando as crianças brincando no coreto ou os casaizinhos que vez ou outra passeavam por lá e lhe trazia a recordação do interior em que ia todas as férias quando criança e se divertia com os primos. De fato naquele dia ela não o chamou atenção.

Lembrou-se então do dia em que pela primeira vez a viu em uma festa. Ela dançava sozinha, cheia de graça, livre como um pássaro, balbuciando a letra da canção sorridente. Belíssima! Ficara encantando com a beleza do vento em seus cabelos, com a magia com que mexia os quadris e as mãos, de maneira que nunca tinha visto antes, acompanhando o ritmo da música. Decidira ali que aprenderia a dançar.

Lembrou-se das aulas de dança que passou a freqüentar e de como rapidamente se encantou por aquela arte que desconhecia até então; e apesar do namorico de cinco meses que tivera com sua colega e parceira de aulas, nunca se esquecia daquela desconhecida menina dançando.

Lembrou-se de quando finalmente criou coragem e foi falar com a tal moça; de início assuntos triviais, um convite para uma dança tímida e rápida, mas não demorou muito e foram evoluindo os assuntos bem como a confiança, tornando-se amizade.

Lembrou-se de como ela passou de sua amiga para sua parceira de dança – a melhor –, sua namorada, sua amante, sua amada.

Lembrou-se de como fora imbecil e estúpido, por motivos que desconhecia se tornou um tanto diferente naquele mês de setembro, e por conta de suas imbecilidades a perdera.

Lembrou-se que cacos de vidro não podem ser colados ou remendados perfeitamente, sempre faltam uns pedacinhos, aqueles que se tornaram realmente cacos, que não podem ser restaurados.

Lembrou-se finalmente que um copo meio cheio é diferente de um copo meio vazio; e hoje ele é um copo meio vazio.

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