Vó Dade era uma senhora que morava vizinha a minha casa. Eu
adorava sentar em sua calçada, ela me trazia uma laranja e nós ficávamos
conversando enquanto eu me lambuzava. Em seu rosto havia algumas manchas (que
por vezes pareciam rugas) devido a uma doença que eu nunca soube realmente qual
era; mas não era assim que ela me contava. Eu tinha 5 anos e um senso
perguntador aflorado. Na primeira vez que a perguntei sobre as manchas ela
sorriu e com aquela calma de sempre me contou que elas eram marcas de algo que
ela tinha vivido. Cada mancha era um episódio. E cada vez eu perguntava sobre
uma mancha diferente. Ela não parecia se importar e me contava sempre uma
história diferente. Não sei se todas eram verdadeiras, mas algumas realmente
eram cicatrizes de algo que a marcou, seja física ou emocionalmente. Mas um dia
eu consegui surpreendê-la:
- Vó Dade, por que nessa parte do rosto a senhora não tem
nenhuma marca?
Os olhos dela brilharam e ela respondeu:
- Aqui, meu pequeno, foi seu “avô”. Não que com ele eu não
tenha marcas, pelo contrário, tenho muitas; mas com ele foram as melhores
marcas da minha vida. Foi com ele que nossos passos se acertaram e nós paramos
de tropeçar. Essa parte sem marca é, na verdade, a maior marca de todas.
Vó Dade se foi alguns anos depois, mas eu ainda me emociono
ao lembrar isso, e a cada marca que me surge eu lembro do que aprendi com ela.
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